Vamos sartar fogo pessoá

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Festa de São João
Santo Antônio disse, São Pedro afirmou, para sermos compadres, foi São João quem mandou.

De repente, o sertão fica todo iluminado. O chão borda-se de estrelas e o firmamento embevecido pasma-se de espanto ao contemplar o indescritível espetáculo, único na face da terra. Milhares e milhares de fogueiras se acedem, uma após outra. É mais uma noite de São João.

Convém lembrar que a fogueira de São João não é simplesmente um fogo que acende à porta da residência nas noites juninas, mas um costume milenar cujo significado merece a atenção e o respeito de todos. Conta-nos o Evangelho que São João Batista, parente muito próximo de Jesus, ao nascer, sua mãe Isabel acendeu uma fogueira para informar aos vizinhos o seu nascimento, conforme combinação prévia. Um outro vizinho acendeu uma outra fogueira para avisar o próximo vizinho, e assim nasceu a tradição de acender fogueiras nas noites de São João.

As pessoas mais antigas dizem que a noite de São João é a mais longa do ano e que a mesma é recheada de grandes mistérios. Admite-se no interior que as cinzas deixadas no solo pela fogueira de São João contribuem para afugentar o demônio e a pessoa que acende uma fogueira pela primeira vez não deve deixar de fazê-la nos anos subsequentes. A tradição uma vez iniciada não deve ser interrompida sob pena de graves consequências para quem assim procede. Recomenda-se ainda que a mesma deve ser erguida e acesa pelo chefe da família. Deve ser armada em frente à porta principal da residência, se possível no mesmo local e sobre as marcas da anterior.

Por uma série de razões somos levados a admitir que a noite de São João e especialmente a fogueira que nela se acende são cercadas de encantos e magias, não comuns às demais noites do ano. Basta atentarmos para as inúmeras experiências e simpatias ligadas ao destino e à vida humana, à previsão do tempo e ao curso natural dos acontecimentos que permeiam as crendices populares. A literatura e a música encontram nas suas tradições temas suficientes para imortais produções. O cinema e a televisão também exibem cenas de festas joaninas no interior com muito sucesso e fidelidade. As danças típicas ligadas aos folguedos de São João, com destaque para as quadrilhas, ocupam espaços relevantes não só no folclore brasileiro, como também de ouros países de origem latina. Lembramos também as comidas e bebidas típicas muito em voga na época do São João, como por exemplo, a canjica, a pipoca, o amendoim torrado, a pamonha, o cuscuz, os licores, o quentão, a batata doce e o aipim sem falar na tradicional leitoa tostada na brasa ao amanhecer do dia.

Um outro costume muito difundido no interior, refere-se ao batismo que se fazia ou ainda se faz ao pé da fogueira dedicado aos santos festejados em junho, principalmente São João. Par tal fim, basta que se retire da fogueira um tição (pedaço de lenha aceso ou meio queimado) sobre o qual se realiza o ritual da cerimônia. Na presença de algumas testemunhas, sempre ao lado da fogueira, os aspirantes prestam juramento proferido em voz alta as seguintes palavras: “Santo Antônio disse, São Pedro afirmou, para sermos compadres, foi São João quem mandou. ” Com muita fé os dois repetem o juramento três vezes, sempre cruzado o fogo em direções opostas e segurando a mão direita um outro. Assim dizendo e assim fazendo tornam-se compadres (padrinho ou afilhado). E uma vez compadre de fogueira, compadre para sempre. Esse singelo costume possibilitou por muito tempo a consolidação de importantes laços de amizade entre os sertanejos, quebrando arestas e aproximando famílias por sucessivas gerações. É pena que esteja em vias de desaparecimento.

Segundo a tradição religiosa, São João Batista, filho de Santa Isabel, jamais poderá permanecer acordado durante as celebrações de seus festejos. Em face da beleza do espetáculo, o mundo acabaria se ao contrário acontecesse. Por isso, o Santo primo de Jesus começa dormir três dias antes para acordar três dias depois da sua festa. Com efeito, um pequeno trecho da ladainha a ele dedicado, diz: “São João se bem soubesse, que hoje era o seu belo dia; desceria dos céus à Terra com prazer e alegria. ”

No conjunto das simpatias e superstições ligadas à noite joanina está a essência da cultura popular, nas suas diferentes manifestações. Quem não se lembra de “ver o rosto na bacia, jogar a faca no tronco da bananeira. ” Existe uma experiência muito difundida no sertão, realizada na noite de 23 para 24 de junho. Segundo os entendidos do assunto é tiro e queda na previsão do tempo. “Coloca-se meia dúzia de pacotinhos de sal no sereno durante a madrugada da noite de São João, para serem recolhidos ao nascer do sol do dia seguinte. Não se esqueça de escrever por fora de cada envelope o nome dos meses do ano que se quer saber a previsão. Por incrível que pareça, cada um deles vai apresentar umidades diferentes. O mês com poucas chuvas, o conteúdo correspondente amanhecera totalmente molhado. ”

Um outro aspecto misterioso refere-se à fogueira que se acende em frente à casa do sertanejo. Em torno dela se faz a festa. Além de trazer a claridade, aquece o ambiente e centraliza as comemorações. É costume popular erguer em algumas delas uma árvore recheada de frutas regionais, produtos da lavoura, garrafas de bebidas. À medida que o fogo vai consumindo a lenha o tronco da árvore também vai se queimando e está acaba desabando no terreiro. Nesse momento, os participantes fazem a festa. A árvore de São João é também chamada de pé-de-pau em algumas localidades do interior.

O folclore brasileiro sem as manifestações culturais ligados aos folguedos joaninos, talvez não teria a riqueza e a variedade que o caracterizam. Mas, não é somente isso, a própria vida de São João Batista em si constitui um exemplo de fé, um testemunho da sua grandeza espiritual. Profeta maior que Deus ao mundo enviou (Jesus o proclama de modo absoluto “diga-vos que dentre os nascidos de mulher não há um maior do que João” (Lucas, 7,28). Se grande foi João Batista, o anunciador de Jesus, grande também é a tradição criada em torno do seu nome, da sua festa, da sua devoção. Não é em vão que se afirma que toda ou quase toda alegria que se espalha no sertão nas noites joaninas seja, talvez, um reflexo da alegria que se espalhou pelas montanhas da Judéia ao nascer João Batista de uma velinha, Santa Isabel, e sem ser logo proposto como profeta do Altíssimo, pois irás à frente do Senhor, para preparar-lhes os caminhos (Lc.1, 76). Que São João nos mostre Jesus, e nós sigamos Jesus.

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