Um sequestro com final feliz

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Não foi fácil passar pelo que passei. Houve momentos em que quase me debulhava em lágrimas. O soluço vinha à minha garganta, mas segurei a barra e acabei me desmanchando em risos, tomado de felicidades.

Olha só o que o destino me reservou aos 73 anos de idade, justamente na noite do meu aniversário. Parece um sonho e até acho que foi um sonho. Confesso que me senti, por quase três horas, a mais vulnerável das vítimas de um sequestro bem planejado, bem-sucedido, diferente dos demais tipos de prisão temporária pelos quais o ser humano pode passar. Assim iniciou e assim terminou o que lhes passo a narrar.

Tudo começou através de um simples telefonema, quando uma amiga me solicitou o favor de comparecer à sua residência, para participar de uma conversa da qual também participariam outras pessoas. Cair na rede como se fosse um peixe inocente, isso por volta das quatro da tarde, quando já planejava fechar o expediente do dia. Como nenhum compromisso formal tinha em vista para a noite, pois os parabéns dos meus familiares já haviam ocorridos durante o almoço, confirmei o encontro para as 20:30h com a promessa de alguém me pegar em casa.

Naveguei o resto da tarde sem mais sem menos. Após a janta me plantei no sofá acessando as mensagens de felicitações que chegavam uma após outra pela divina internet. Fiquei no aguardo por um bom tempo e no horário combinado recebi um recado para descer pois um veículo se achava à minha espera do outro lado da rua e de forma bem deliberada e inocente entrei no carro que me levou ao “cativeiro”.

Tomamos inicialmente o destino do centro da cidade. No volante um senhor de poucas conversas e no banco traseiro uma jovem que não largava do celular, além da dita senhora autora do convite, que a todo instante me distraia com uma conversa sem pé e sem cabeça. Passamos por diversas ruas iluminadas, paramos em frente a uma farmácia e após alguns instantes tomamos rumo ao endereço por ela planejado. Eu estava prestes a perder a minha liberdade, através de uma armadilha digna de um filme policial.

Chegamos à frente de um enorme portão numa rua super movimentada. A senhora ainda no banco traseiro dava as ordens e o motorista, seu cúmplice, cumpria-as categoricamente. A jovem desceu do veículo, obedecendo o comando, abriu o acesso e chegamos a um pátio totalmente escuro. Recebi ordens para descer, levava comigo apenas uma blusa, pois a noite estava com ar de frio exigindo um agasalho, face ao vento que soprava forte. Sempre ditando o que se deveria fazer, o meu cicerone, muito bem vestido, determinou que eu aguardasse próximo a uma porta que estava à nossa frente, enquanto isso, a garota do celular conversava com alguém do outro lado da linha que também recebia ordens.

Como num passe de mágica, a porta se abriu mostrando uma sala totalmente escura na qual eu deveria entrar. Comecei então a perceber que algo estranho estava acontecendo, até senti um certo arrepio no corpo e antes mesmo que concluísse o meu pensamento as luzes do ambiente foram acessas e dentro dele estava um monte de conspiradores. Pensei rapidamente. Fui sequestrado. Agora não há mais tempo de fugir.

As pessoas que ali estavam se levantaram de uma só vez dando início a uma euforia ao som de um cântico de guerra muito conhecido. Todas estavam bem vestidas e todas vieram ao meu encontro numa manifestação incontida e prazerosa. Uma a uma apertava a minha mão me abraçava me levando ao delírio de uma emoção jamais vivida em circunstâncias semelhantes.

Diante do inesperado me faltaram as palavras, pois, a sucessão de rostos e a profusão de vozes me confundiam e me levavam a senti uma criança no meio da multidão como se todos ali estivessem reunidos para festejar a minha inocência numa cerimônia cheia de palavras, luzes, gestos, aplausos e abraços de confraternização cheios de calor humano.

Cai na real e descobri que havia me tornado refém de uma festa surpresa preparada por amigos para comemorar o meu aniversário. Aí então, percebi que eu era a pessoa mais feliz da vida pois o que eu julgava uma incógnita se transformou de repente numa comemoração digna do meu mais profundo apreço e reconhecimento.

Aí então, percebi que não era um simples encontro. Era uma festa. Uma festa povoada de amigas e amigos. Pessoas do bem e da concórdia ali estavam para me abraçar. E como eles me abraçaram com carinho, dizendo palavras que me tocaram e me emocionaram. Ali estavam a minha esposa, os meus filhos, as minhas noras e os meus amigos que sabiam de tudo, mas nada me anteciparam para não tirar o sentido da surpresa. As mensagens de regozijo e felicitações se sucederam numa perfeita comunhão de gestos, os mais afáveis e enaltecedores.

Daí para frente…. Ora meu amigo, daí para frente nem é preciso falar. Todos sabem como é a dinâmica de uma festa de aniversário. Mesmo assim, confesso, que esta será inesquecível pelo resto da minha vida. Agradeci como pude o carinho recebido. Abracei a todos com a mesma veemência tomado de satisfação. Derramei algumas lagrimas quando mostrei aos presentes a mensagem que mais me tocou o coração. A mensagem do meu pequeno Lorenzo, meu neto, de seis anos de idade, através de um áudio vindo pelo WhatsApp. Aqui prá nós, meu pequeno Ló, como fiquei feliz ao ouvir a sua voz. Daí par frente, apaguei as velinhas dos meus 73 janeiros, fiquei um pouquinho mais velho e mais convencido de que as pessoas que me cercam me amam de verdade. Muito obrigado a todos que lembraram de mim nesta data tão importante na minha vida apesar do vacilo que dei.

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