Rumo à Pedra da Santana

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Pense num pic nic a quase mil metros de altitude, às primeiras horas da manhã, recheado de frutas, biscoitos, tortas, sucos naturais e a tradicional farofa de galinha caipira, num domingo ensolarado, ao lado da misteriosa Pedra da Santana, considerada um verdadeiro enigma da natureza, exclusivo do Vale do Paramirim.

É minha querida, acho que você não teria fôlego para tanto. Para sentir a brisa e os ares dessa paisagem a se perder de vista, haja pernas e preparo físico para se buscar o alto do Morro do Sobrado percorrendo uma vertiginosa trilha, ladeada de cactos e árvores de pequeno e grande porte, relativamente preservados.

O primeiro desafio teve início na madrugada. Sair da cama às cinco da manhã, ganhar a estrada carroçável da Noruega, passando pela Lagoa de Fora, de fato requer um certo sacrifício, mas o prazer de se juntar aos amigos e curtir a oportunidade de suar a camisa para se extasiar  com o cheiro silvestre do mato orvalhado, faz da escalada algo gratificante pela sensação do contato com a natureza e a satisfação de participar de uma pequena caravana rotulada de turista.

Não me lembro o ano em que visitei a Pedra da Santana pela primeira vez, mas a segunda e a terceira o fiz fora da Romaria da Semana Santa e em todas elas colhi boas impressões, associando o seu aspecto histórico-geográfico ao paisagístico, agora valorizados pelas romarias religiosas e o turismo ecológico em virtude da paisagem que nos oferece e do mistério predominante na sua origem, a desafiar a interpretação de todos que visitam o local.

À sombra da Pedra da Santana, assim chamada por se localizar próximo à povoação que também possui esta denominação diversas gerações contaram as suas resenhas e se estremeceram ante o inexplicável de sua formação. Um monumento megalítico ímpar no mundo inteiro pela sua forma e constituição, representado por uma enorme rocha pesando milhares de toneladas apoiada sobre um tripé a desafiar o equilíbrio e a natureza. Uma provocação à curiosidade humana, uma pintura, um quadro que embevece os olhos de qualquer observador. Uma obra de arte esculpida no atelier do eterno pintor.

Não só desperta a admiração. Em desafio a ciência, um absurdo para os leigos, um colírio aos olhos dos cépticos, um contexto no qual se evidencia a presença de Deus a mostrar que mesmo no meio do agreste e do inóspito existem mais mistérios do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

Para contemplar e sentir tudo isso, vencemos os desafios da distância e da escalada, impostos pelas dificuldades do aceso. E  como cobra rastejando pelo chão, contando histórias, escutando músicas, passando as resenhas a limpo, ouvindo o balido das cabras de Juarez, saltando pedras, caindo e levantando, seguindo o roteiro das 14 estações a lembrar o caminho de  Cristo rumo ao Calvário, antes das oito, chegamos ao  topo da Serra para deslumbrar a paisagem a se perder de vista e quedar-se ante o enigma milenar da Pedra do Sobrado a perdurar nos tempos.

Como não poderia deixar de fazê-lo, dedico esse parágrafo aos companheiros de viagem Marcos Domicio, Armando Moitinho, Amanda Moitinho, Mauro Sérgio, Dona Genésia, que me fez dar gostosas gargalhadas, a Matheuzinho que em momento algum largou a sua caçambinha de plástico, e a Elaine Marques, idealizadora do passeio.

Além das cruzes fincadas ao longo da trilha e a Fonte do Touco a verter água do seio da Serra em todas as épocas do ano, também visitamos o Cruzeiro de Madeira de cujo pedestal copiamos a seguinte legenda: ” Este Cruzeiro foi fundado em 24 de agosto de 1987 por João Batista Filho com o apoio de João de Miro e seus filhos”, ano que marca o início da celebração da Via Sacra nesse local.

Antes de tomarmos o caminho de volta e das formalidades  das despedidas, fomos agraciados com um  copo de água gelada na  residência  do Sr. Juarez, um dos  proprietários da serra onde se encontra plantada a Pedra da Santana e dono do cão Chocolate que nos deu a merecida assistência como guia e fiel amigo durante a nossa jornada, sem dúvida alguma uma particularidade a se somar na companhia de quem sobe a serra  a passeio ou por curiosidade.

Agora, com as pernas trôpegas e as atenções divididas entre o futebol na  TV e o visgo das redes sociais, rabisco o dever de casa torcendo pelo brilho da Estrela Solitária, uma paixão que carrego com muito sofrimento e orgulho desde os anos coloridos da década de sessenta, quando a Pedra da Santana ainda vivia no anonimato de sua existência ou quem sabe se debutando  para encher os olhos do mundo de enigma e admiração como um valioso cartão postal do relevo de Paramirim.

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