Retalhos da miséria brasileira

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Vi esta foto em um grupo do WhatsApp acompanhada de alguns comentários, uns picantes outros maldosos, então achei de lhe dar guarida nas páginas de minhas considerações, não somente pelos múltiplos remendos da coisa fotografada, mas também pelo que se pode associar ao seu contexto.

Os pés dos brasileiros merecem mais respeito!

É muito difícil compreender, sentir e comentar uma realidade como esta ou uma outra semelhante. Mas, em verdade, meu caro amigo comentarista, esta imagem é, infelizmente, um retrato da miserabilidade vivida por muitos brasileiros. É um dos fragmentos da pobreza e do deplorável atraso em que muitas famílias ainda vivem neste continente chamado Brasil, como também em outras partes do mundo.

Não a subestime. Negligencia-la é fazer desdém ao chapéu de palha do trabalhador do campo, carcomido pelo uso; é sorrir da camisa mais de uma vez remendada do roceiro que nos produz o pão. Zombar dessa imagem é menosprezar a camiseta molhada pelo suor do diarista que ajuda manter a nossa economia. É vilipendiar a multidão de crianças que andam descalças por este mundão a fora, sem ter o que comer. É desmerecer da saia, da blusa ou do lenço desbotado de milhares de mães de família que não gozam do privilégio e do direito de ter se quer duas peças de roupas para se trocar na sucessão dos dias.

Não pense, meu amigo, que a dignidade de um pais individualista como o nosso se acha tão somente no terno novo dos homens engravatados ou no salto alto das modelos que desfilam nas passarelas dos grandes teatros. Engano puro! Somos o país dos contrastes e subestimar a pobreza e os elementos do seu contexto é desmerecer de uma considerável parcela do todo que nos representa.

Esta imagem deveria fazer parte da galeria de artes da miserabilidade brasileira. Deveria estar exposta no hall de entrada do Congresso Nacional e nas salas requintadas dos palácios do governo como chamativo para uma reflexão sobre o que ainda somos em função desses contrastes.

Esta imagem deveria ficar ao lado da bandeira ensanguentada dos que retornaram do campo de batalha pois é tão emblemática como qualquer outro símbolo de uma nação marcada pela desigualdade social. Deveria estar na sala vip dos aeroportos internacionais com uma legenda bem visível: Isto também é Brasil.

A imagem desta sandália, meu caro amigo, deveria integrar a sala dos troféus, muito próxima a camiseta verde amarela que tantas glórias tem dado aos brasileiros amantes do esporte, como marca de um povo que não se submete, mesmo sofrendo a retaliação das classes opulentas e opressoras.

Não pense que a grandeza do mundo se acha nos modernos palácios de granito adornados de ricas cortinas. Virar as costas ao homem sofrido, a mulher guerreira é se postar na berlinda do extremo descaso aos desamparados e injustiçados no atendimento pleno de suas reais necessidades.

Esta sandália, meu caro, remendada, recosturada, desgastada e reutilizadas inúmeras vezes é fruto da tecnologia de uma intolerável escassez. É o retrato sofrido de uma nação despedaçada pela corrupção, pela marginalidade, pela descriminação. O retrato de um povo enxovalhado pela impunidade, marcado pela estratificação desumana e perversa presente no cenário Nacional desde o início da história pátria. É a fotografia em preto e branco de um mundo subdesenvolvido do qual fazemos parte, não por opção nem por uma fatalidade do destino, mas por ingerência dos que governam em beneficio próprio.

Não importa se ela pertenceu a um Zé, a um João ou a um Mané. Se foi de Chico ou de Francisco. Não importa se ela calçou os pés de um solitário andarilho, de um vagabundo, de um camponês ou de um catador de papel. Ninguém sabe quem foi o seu dono. Isto não importa. Por trás dela existe a história de alguém, certamente, massacrado pelo revés de uma vida sofrida.

Gostaria de ressaltar, para finalizar o meu desabafo. A sandália havaiana, japonesa ou de borracha como muitos preferem chama-la teve na sua retaguarda as históricas alpercatas de couro cru e os tradicionais calçados nordestinos imortalizados na figura dos flagelados da seca. Desmerecê-los é provocar um vazio na história e nos costumes que nos antecederam.

Negligenciar aquilo que nos serviu ou foi útil a alguém em inusitadas situações é muito constrangedor. Claro que tudo tem seu tempo de vida útil, até mesmo uma aeronave construída com muita tecnologia. Mas, a sandália da foto é a cara de muita gente. É um retrato associado a diferentes realidades nacionais.

Em verdade, também nos cabe dizer que os pés do brasileiro, seja preto, branco ou mestiço, não poderiam passar por tal vexame. Seja ele do campo ou da cidade, todos merecem ser tratados com as devidas considerações. A sandália que aí vemos e que ainda calça os pés de milhares de brasileiros é talvez o resultado do déficit do cartão do bolsa família digitalizado em nome de milhares de grã-finos com sob o aval de insensatos gestores da coisa pública.

Sua imagem bem que poderia ser tomada como sinônimo dos milhões de dólares desviados e evidenciados nos últimos escândalos administrativos nos bastidores das elites brasileiras. Bem que ela poderia ser tomada como ponto paralelo dos quilômetros e mais quilômetros de estradas intransitáveis que cortam o chão brasileiro, dos sucateamentos da saúde e da educação e de muitas outras mazelas que existem por aí a fora.

Esta sandália ao meu ver bem que parece um pouco com a coberta rota dos moradores de rua, com o inaceitável quadro de pessoas morrendo nas filas dos hospitais, com o desmatamento de nossas florestas com os preconceitos que ainda predominam no nosso país. Ao meu ver ela muito parece com a forma de governar o nosso povo. Pense um pouco. Seria bom, meu caro amigo que o senhor assim pensasse!

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