Renatinho de Vilar

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Renatinho de Vilar

Renatinho de Vilar não era flor que se podia cheirar. Nem usá-la como decoração. Moleque criado na Rua de Trás e habilitado nas malandragens do Caminho do Rego, aprendera desde cedo a tirar proveito das oportunidades surgidas.

Era o tipo que sabia aprontar. Apostava corrida de jegues, vendia pirulitos nas rezas do mês Mariano, pirraçava Tõe Tolo e Felinho e ostentava  o privilégio de abastecer de água a casa de quem lhe oferecesse  melhor pagamento pela carga de corotes.

A ele se atribui a histórica façanha de comer uma banda de tijolo de mamãozinho numa demanda feita com Antônio de Seu Oscar, dono da maior ingenuidade de Paramirim. O fato aconteceu na venda de Zé Borboleta, localizada na Praça da Érico Cardoso que naquele tempo era chamada de Praça da Bandeira. Sem um tostão no bolso e sem crédito perante o vendeiro, Renatinho, de olhos vidrados nas guloseimas espalhadas no balcão, apelou para todos os recursos e acabou fazendo uma aposta com o seu protagonista. “Bestagem Renatinho que você não come”. A resposta veio seca: Quer apostar! Para admiração de todos, o moleque enfiou goela abaixo todo o objeto de seus desejos, deixando a vítima a ver navios e sem os setecentos reis que trazia na algibeira.

O fato não parece tão fantástico assim, se não disséssemos que dois litros de refresco de tamarindo também fazia parte da querela. Imagine a fermentação. A notícia correu e o comilão se tornou famoso, aumentando a cada dia o currículo de suas aprontações. Foi aí que surgiu o velho Otaviano Cruz no seu caminho para garantir a sua receita semanal.

Casado com D. Leobina, morava nos arredores da Praça Coração de Jesus. Passava dos sessenta, era cego e muito mulherengo. Sua paixão se prendia à Sinhozão, uma mulata rechonchuda, residente no Alto do Cemitério Velho. Conhecedor da história, Renatinho oferecia ao velho o ombro para chegar ao seu embrecho pela quantia de duzentos reis por cada viagem de ida e volta. Um bom trocado para a época. Assíduo como era, o Seu Otaviano havia se tornado uma mina de ouro para o leva e trás.

Tudo funcionava nos conformes. Horário preestabelecido, itinerário traçado, segredo absoluto. Além do mais, o guia era de extrema confiança do cego. De extrema confiança vírgula, até que um dia D. Leobina fica sabendo tim-tim por tim-tim das aventuras do marido. Armou um plano para lhe dar o troco e o danado do Renatinho de herói se transformou no grande vilão das andanças amorosas do Sr. Otaviano.

– Olha moleque, eu estou sabendo de tudo. Sei que você ganha duzentos reis por cada jornada. Vou lhe pagar o dobro para você fazer o percurso diferente. Dê uma volta com ele e largue o aqui na minha porta como se estivesse deixando na casa daquela sirigaita.

Renatinho sentiu um arrepio no corpo, mas diante da oferta não podia recusar a proposta. Quantos pedaços de tijolo com requeijão valeriam aquele quatrocentos reis. Fechou o negócio e até recebeu adiantado, pois a velha nunca mais queria vê-lo na sua frente, depois da trapaça realizada.

Dia seguinte, no horário costumeiro, Renato oferece seus serviços ao amante da mulata Sinhozão pela última vez. Não podia mais desfazer o compromisso com D. Leobina, o dinheiro já havia evaporado numa farra de guloseimas na venda de Seu Zé. Percorreu uma meia dúzia de ruas, subiu e desceu a Praça Coração de Jesus e largou seu patrão na porta da esposa, no momento exato em que esta se encontrava à janela a espreitar a rua, preparada para o desfecho. Julgando que se achava na porta de sua gostosura, o velho se derrete com frases de amores, batendo à porta como de costume, tudo sob o olhar da esposa que o observava para lhe dar o troco.

– Nega, abra a porta. É seu nego veio. Venha me receber. Estou morrendo de saudades.

Enquanto isso, Renatinho com as pernas bambas, escondido na esquina a tudo observava para depois contar o fato à molecada. Não precisa dizer que D. Leobina, ciumenta como era, abriu a porta e em vez de beijos e abraços, Seu Otaviano é recebido com uma boa sova de sandália, sem contar os impropérios da esposa traída.

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