Quinzinho e Major

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Quinzinho e Major

Aproveitando-se do conteúdo de uma curiosa nota publicada pelo Jornal O Grito na página 03 de sua primeira edição com o título RESGATANDO A HISTÓRIA e a notícia do falecimento de Joaquim Alves de Magalhães, passo a falar sobre Quinzinho e Major, matando dois coelhos com uma só cajadada.

Pouco me importo se isto vai despertar ou não o interesse de alguém. Cada um come o prato de que se gosta. Pelos pratos que se oferecem por ai, opto pelo da história. Não precisa pressa para degustá-lo.

Quinzinho ao bem da verdade é o folclórico apelido de Joaquim Alves de Magalhães falecido na última sexta-feira, 24 de dezembro, no povoado de Cachoeira Grande, situado entre Água Quente e Paramirim. Filho do casal Alfredo Alves de Magalhães e Clotilde Amélia de Magalhães, Quinzinho é trineto de Luiz Ribeiro de Magalhães, fundador da Fazenda Cachoeira. Para sermos mais precisos, Alfredo era irmão de D. Neca e de Doutor (Manoel Alves de Magalhães), este último, pai de Edgard Abreu Magalhães, dono da Novo Horizonte. Examinando o emaranhado genealógico dos Magalhães da Cachoeira, podemos afirmar que Quinzinho estava na quinta geração partindo do português Luiz Ribeiro, falecido em 1849. Os Magalhães mais recentes de que se têm notícias já alcançaram a casa da nona geração deste longícuo lusitano.

Quinzinho é também o diminutivo do Quim de Joaquim. Tornou-se bastante conhecido nas rodas do jogo de vispora. Na gíria deste jogo cada bilro tem um apelido, uma espécie de código entre os participantes, extraído da cultura popular local. Assim, o número 12 é UMA DÚZIA, o 44 é A JUSTIÇA DE MATO GROSSO e o 15 é pejorativamente QUINZINHO DA CACHOEIRA, bem como, o 13 é o NÚMERO DA SORTE.

Quinzinho e Major eram primos carnais entre si, aliás, quase todos cachoeirenses são parentes um do outro. Ambos possuíam problemas mentais, não se casaram, nem procriaram filhos, mas tiveram destinos diferentes. Quinzinho, ao que se sabe, nunca arredou os pés das barrancas do rio Paramirim. Major percorreu trechos e teve uma biografia mais diversificada, conforme passamos a relatar.

Se vivo estivesse, o professor Cecílio Alves de Magalhães estaria hoje na casa dos noventa anos de idade. É também trineto de Luiz Ribeiro, sendo Henrique e Manoel Monteiro seu avô e bisavô paternos, respectivamente.

Em reverência à sua memória, dedico-lhe esta página rascunhada à luz das lembranças daqueles que se foram deixando atrás de si um pouco de história a ser contada e recontada às gerações presentes e futuras.

O professor Cecílio jamais poderia ficar de fora dessa ralação, pois o seu viver diário constituiu-se numa peça inacabada, cheia de encontros e desencontros com a sua própria vida.

Nascido no povoado de Cachoeira Grande, Cecílio Alves de Magalhães teve uma infância tranqüila ao lado dos seus familiares, apesar das carências sociais da época, marcadas pela grande crise econômica de 1932 que abalou o sertão da Bahia, dele se desalojando centenas de famílias para outras regiões do país.

Seus pais Leonel Alves de Magalhães e Beatriz Alves de Magalhães (primos carnais entre si), ambos com laços de parentescos com os antigos colonizadores da região, logo cedo perceberam a vocação do filho para o aprendizado da leitura e da escrita, matriculando-o numa escola local, onde o mesmo se alfabetizou e fez o curso primário.

Na década de trinta até o final dos anos quarenta, poucos professores havia no município, realidade esta agravada pelo isolamento em que vivia a região. Raros jovens possuíam condições para estudar.

Embora descendente de família católica, Cecílio foi levado, quando adolescente, por um pastor presbiteriano, para estudar em um colégio protestante em Ponte Nova – BA, atualmente, Wagner, ali se formando em magistério primário.

Depois da formatura, retorna à sua terra natal, disposto a contribuir na instrução e formação educacional dos seus conterrâneos. Não se sabe para qual escola foi designado, ou como e quando se ingressou no Serviço Público. Sabe-se, entretanto, que ele ficou dois anos sem receber os seus vencimentos. Enfrentou-se nesse período muitas necessidades e privações, circunstâncias que motivaram o seu enfraquecimento mental e conseqüentemente o seu afastamento das atividades de sala de aula.

Muito inteligente, como se dizia, o prof. Cecílio revelou desde cedo habilidades especiais, sobressaindo-se no aprendizado da língua francesa, dominando-a facilmente.

Com a criação do Ginásio de Paramirim em 1958 e a inclusão do francês no seu currículo, o “ Parler Vous Française Bien ” do prof. Cecílio (já a esta altura apelidado de Major, não se sabe o porquê), entra em evidencia, apesar das controvérsias do seu comportamento psíquico. A sua ajuda era sempre indispensável na tradução e interpretação dos textos trabalhados em sala de aula por Dr. Aurélio Justiniano Rocha, titular dessa cadeira nos primeiros anos do curso ginasial.

Na década de sessenta ou setenta, Dona Beatriz (Beata), especialista na arte de confeccionar bonecas com retalhos de tecidos (tecnologia de escassez), deixa o Paramirim, já idosa e doente, para residir no Estado de Mato Grosso, com a filha Clarinda Alves  de  Magalhães.  A  segunda  irmã  de “ Major ” (Julieta Alves de Magalhães), faleceu na localidade de Cachoeira. Como o irmão, também sofria das faculdades mentais.

Com a separação da mãe, o prof. Cecílio passou a viver a plenitude de suas crises nervosas. Veio o desgaste moral, decorrente do seu comportamento considerado estranho à recatada sociedade paramirinhense que o segregava. Era o lado controvertido de sua vida.

Mesmo assim, o velho aluno da escola de Ponte Nova, economizou alguns recursos e construiu uma pequena casa em Paramirim, onde passou grande parte de sua vida marcada pelas seqüelas de sua moléstia. No desejo de rever a irmã, promove uma viagem a Campo Grande, sendo ali surpreendido pela morte, ao que me parece, no final dos anos oitenta.

Apesar dos percalços e revés deparados na sua caminhada, talvez, por uma questão do destino, o filho de Dona Beata, a mulher que confeccionava bonecas de pano e as expunha numa caixa de sapato na feira livre de Paramirim e Água Quente, marcou presença entre nós, não apenas pelo seu temperamento agitado, sobretudo, pela contribuição prestada na área da educação de jovens e adultos, investimento reconhecido apenas por aqueles que trazem no coração e na alma as virtudes da generosidade e da gratidão.

Nesse particular, não poderia de forma alguma, ser omitido o nome de um de seus alunos, o Dr. Jordão Antônio Nunes, Promotor de Justiça da cidade de Bragança Paulista, que pelos seus méritos de bondade sobe reconhecer o trabalho do professor Cecílio.

Nascido na comunidade de Matheus, região serrana de Paramirim, Dr. Jordão, aos vinte anos de idade, decidiu deixar a zona rural e morar na sede do município, a fim de iniciar os estudos. Aqui chegando, teve a felicidade de conhecer o seu futuro benfeitor, que em poucos meses não só o alfabetizou, mas o preparou para prestar o exame de admissão e ingressar no Ginásio de Paramirim. Na época, uma verdadeira façanha para ambos.

Depois de muitos anos, retornando à terra natal, Jordão sentiu de perto as carências de seus conterrâneos, muitos dos quais companheiros de infância. Sensibilizado, construiu com recursos próprios um prédio escolar e um posto de saúde no mesmo terreno onde outrora vivera sua família, para servir à comunidade.

Gesto não só humanitário, mas acima de tudo louvável pela sua intencionalidade, digno dos mais rasgados elogios. Não bastasse o benefício, no ato da inauguração, ocorrida em 07 de janeiro de 1996, Dr. Jordão fez questão de perenizar a memória de seu mestre e benfeitor, constando na faixada da escola por ele construída o nome do PROFESSOR CECÍLIO ALVES DE MAGALHÃES.

Está aí, pois, meu caro redator do Jornal O Grito uma pequena resposta para a sua grande indagação e as razões pelas quais você não vai poder entrevistar o professor Cecílio. Há muito tempo ele partiu daqui para Mato Grosso e de lá para a eternidade. O muito que podemos fazer agora é rezar pela sua alma. Valeu a pena pelo resgate da história. Siga em frente, você não tem medo de mexer com o que está quieto. Bravos!

Veja também: Taú e os Requeijões de Dona Neca

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente esse resgate da história dos tempos idos de Paramirim e em especial relembrando do grande educador que foi o Prof. Cecílio Magalhães (Major). Parabéns pela sua memória em nos brindar por essas recordações.

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