Quarta-feira de Cinzas

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Quarta-feira de Cinzas

Finalmente desponta-se a Quarta-Feira de Cinzas. Para muitos, “que pena!”, para outros “até que enfim!”, e para uma boa fatia da população “ufa!”, já não aguentava mais. Como um bolo freneticamente fermentado foi-se mais uma rodada de carnaval. Outros e outros virão, como tantos outros passaram, deixando em cada folião as marcas de indeléveis recordações. Marcas de alegria, tristezas, decepções e, como não poderia deixar de ser, de vibrantes paixões, algumas delas duradouras, outras apenas de alguns momentos. Marcas causadas por pessoas que se viram, que ainda se veem, ou que se escaparam para sempre. Por fim, no coração de todos um gostinho da efervescência vivida durante quatro noites de extrema folia.

Desponta-se e amanhece mais uma Quarta-Feira de Cinzas, diferente das demais pelo seu bíblico significado, digno do respeito e da reverência de todos nós. Assinala o primeiro dia da Quaresma, que por sua vez é uma referência aos quarenta dias que Jesus passou no deserto suportando as tentações e que os cristãos-católicos comemoram todos os anos.

Esta data me traz grandes recordações. Vejo-me ainda ajoelhado num canto da sala, num gesto de obediência e respeito, pronto a receber o sinal da cruz marcado pela sensibilidade dos dedos de minha mãe impregnados de cinzas. Após essa cerimónia, levantava-me sorridente para mostrar a marca estampada na testa da qual não se podia desfazer, segundo suas recomendações. Sabia que era um dia santo, mas não sabia o significado. Lembro-me que não se podia comer carne nas refeições, mas nunca faltava o peixe.

Os costumes mudaram. E como mudaram. O comportamento das pessoas também. Os valores universais passam pela dura prova de um ininterrupto desmonte, cujo desenrolar não sabemos aonde vai parar. Os excessos em todos os sentidos transbordam de tal forma que não podem mais ser contidos por nenhuma barreira. Ninguém é capaz de listar os acontecimentos mais gritantes que vêm abalando a humanidade ultimamente. Cada dez notícias divulgadas pela televisão, pela imprensa, até mesmo pelas redes sociais, oito ou nove são chocantes. O mundo precisa de mais Cinzas.

Enquanto rabisco estas palavras, nas primeiras horas desta quarta-feira, desta Quarta-Feira de Cinzas, vejo lá fora as pessoas voltarem da última noite de carnaval, como se fossem vítimas da curtição. Coitadas, parecem mal matadas, ou vindas de um campo de batalha. Não trazem o sorriso no rosto, nem o semblante da vitória, mas a sensação mórbida de quatro noites mal dormidas. Trazem consigo não as Cinzas da Quaresma, mas o pó de um contundente vendaval.

Que venha mais uma Quarta-Feira de Cinzas com as tradições do jejum, como um dia santificado, com as suas restrições à carne, com o seu simbolismo. Que venha o primeiro dia de uma abençoada Quaresma com o seu significado milenar. Que a igreja assuma de fato o seu papel de interceder pelas causas mais justas da humanidade fazendo sempre prevalecer a Justiça, a Paz, a Concórdia e a Igualdade Social.

Que esta quarta-feira, seja de fato um encontro e um reencontro de cada um de nós com os nossos irmãos, com a nossa família e com Cristo, não importa a religião, para se efetivar o começo de uma nova vida. Que venha outros carnavais com menos excessos, menos violência e mais harmonia. Que venha os novos tempos tão almejados, repletos de entendimentos entre todos os segmentos da sociedade, para que de fato possamos ressurgir das Cinzas e provarmos que temos Deus no coração.

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