Por que 300 anos de Canabravinha?

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Falar que Canabravinha possui 300 anos é muito fácil, mas um tanto comprometedor. Toda e qualquer afirmativa nesse sentido carece de comprovação documental, do contrário, pode ser uma simples suposição, quem sabe, uma balela.

Basear-se na oralidade tão somente, pode gerar uma imprecisão, uma vez que o repasse da tradição oral de geração a geração sem quebra da fidelidade histórica não é tarefa fácil, ainda mais que se trata de três séculos de existência.

Não bastasse essa fragilidade, antes de qualquer colocação, é preciso eleger um referencial. O que de fato se quer dizer com a expressão Canabravinha tem 300 anos? Será somente a capela, a romaria, a devoção, a compra ou ocupação das terras, a abertura de uma estrada, a chegada do primeiro colonizador, a construção de uma casa, a instalação de um engenho ou a descoberta de vestígios de ouro na superfície de seu relevo. A comunidade de Canabravinha é um todo e cada parte desse todo foi construída cada uma a seu tempo.

Essas indagações são imprescindíveis, porque não se cria uma romaria sem uma capela, não se constrói uma ermida sem a presença humana, não se cultiva uma devoção sem o santo de referência, não se coloniza sem o concurso de braços para o trabalho. Finalmente, o que é que se comemora 300 anos em Canabravinha? Jamais será o seu todo.

Se recuarmos no tempo, veremos que 300 anos atrás se esbarram em 1715, mais ou menos o período em que chegou aos rincões rio-contenses o “ orgulhoso e opulento, lascivo e destemido ” Coronel Sebastião Raposo Pinheiro para iniciar o processo de extração de ouro daquelas paragens, o mais produtivo de que se tem notícias da Serra das Almas. Assim sendo, e se verdade for, poderíamos dizer que Canabravinha é também da época do Raposo e do ciclo aurífero das minas do Rio de Contas. Nesse caso, tão velha quanto esta.

Diz a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros que o munícipio do Rio de Contas teve sua origem na última década do século XVII, quando viajantes que vinham de Goiás e do norte de Minas Gerais, em demanda da cidade de Salvador, capital da província da Bahia, fundaram um pequeno povoado que tomou o nome de crioulos, para lhes servir de “ ponto de pouso ”, ou descanso, na exaustiva caminhada.

Nessa de navegar no tempo procurando entender os 300 anos da hospitaleira Canabravinha, fico com as palavras do ilustre filho de Paramirim, grande pesquisador da história do sertão baiano, Dr. Antônio Carlos Leão Martins, expressas no seu artigo de fôlego publicado no Jornal a Tarde sobre Gonçalo de Athayde, o qual menciona que Canabravinha é uma das “ povoações mais ansianas de nossa mais longínqua hinterlândia ”. Essa precisa afirmativa nos dá crédito e estímulo a recorrer a outras fontes como o texto da Escritura Pública de Venda e Quitação da fazenda chamada Arrayal, passada no Cartório do Tabelionato de Notas da Vila Nova de Nossa Senhora do Livramento das Minas do Rio de Contas em 09 de fevereiro de 1797, no qual é citado outras fazendas como Malhada e Pau da Bateia, sem nenhuma referência, entretanto, sobre Canabravinha.

No século XIX, a primeira referência sobre a Fazenda Canabravinha encontra-se no Testamento do Capitão Antônio Ribeiro de Magalhães lavrado em 16 de julho de 1817, de onde extraímos esse trecho:

“…e bem assim que lhe dei mais huma posse de Terras na Fazenda de Canabravinha e Mucambo com suas cazas de morar e Engenho tudo coberto de telha com suas benfeitorias para plantar e criar …”.

A longínqua Resolução Provincial nº 200, de 29 de maio de 1843, autora da criação da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo, também nos contempla com esta preciosa citação sobre o distrito de Canabravinha, que a esta altura já existia.

“Art. 2º – A Freguesia do Morro do Fogo terá por limites o terreno compreendido nos Districtos Civis da Subdelegacia  do Morro do Fogo e Canabra-vivha;…”.

Essa referência constitui-se numa peça basilar para afirmarmos que a Subdelegacia e o Distrito de Paz de Canabravinha foram criados provavelmente no decorrer das Regências, compreendidas entre os anos de 1831 a 1840, mostrando assim que os avanços dessa localidade ocorreram paralelos aos de Morro do Fogo.

No Segundo Reinado ( 1840 – 1889 ) uma outra referência do nome Canabravinha se acha no Inventário de Antônia Francisca de Magalhães, neta do referido Capitão Ribeiro, no qual se lê:

“Inventário de Antônia Francisca de Magalhães, que faleceu sem testamento em 27 de junho de 1863 na Fazenda da  Lagoa, distrito de Canabravinha, continuado com o viúvo inventariante Brás de Vasconcellos Bittencourt “.

Daí para a frente, várias outras referências são encontradas em alguns periódicos publicados em diferentes datas, dando contas de nomeações de Subdelegados, Escrivães de Paz e Professores para as repartições do distrito de Canabravinha que continuou a pertencer ao território do Rio de Contas até 23 de março de 1890, quando foi criado o Munícipio de Água Quente. 

Dessa forma, fico a garimpar a possibilidade de encontrar uma resposta positiva ou negativa para dar guarida às minhas indagações. Se realmente a bucólica Canabravinha de Nossa Senhora da Graça tem de fato três séculos ainda não sei. Nem por isso, deixo de acreditar, mas não assino em baixo, até que algo convincente me dê razões para bater o martelo sobre o assunto. 

Enquanto isso, fico com os dizeres de uma singela subscrição, datada de 18 de outubro de 1940, redigida pelo senhor Manoel Brasil a seu filho Augusto, que na época trabalhava em Garça, interior de São Paulo. Dela destacamos os seguintes dizeres:

“Manoel Brasil, na qualidade de procurador da Festa de Nossa Senhora da Graça, que se festeja no dia 2 de Fevereiro a 167 anos nesta Capela de Canabravinha da Frequezia de Paramirim nesse Estado da Bahia… ”.

Transformando esta valiosa informação numa operação matemática, chegaremos a seguinte conclusão: Se em 1940 a festa de Canabravinha já possuía 167 anos de existência, basta subtrair este número de 1940 que voltaremos ao distante ano de 1773, ano provável do início dos festejos da gloriosa Nossa Senhora da Graça na Capela de Canabravinha.

Concluindo-se a operação, basta subtrair 1773 de 2015, cuja diferença é 242, que segundo a referida subscrição é o número de anos que a tradicional festa de Nossa Senhora da Graça estará completando no dia 2 de fevereiro do ano em curso.

Basta agora precisarmos a data dos demais elementos do seu contexto histórico. Se esse alguém que fala que Canabravinha tem 300 anos que o diga agora com as devidas provas ou cale-se para sempre. Digo mais, fico feliz se provar.

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