Peixoto, um batuta da gaita

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Para cada escola de samba um enredo, para cada herói um troféu
O batuta da gaita numa brilhante apresentação

Já é tempo de se falar de uma pessoa que tem prestado grande contribuição ao folclore regional, especificamente ao de Paramirim. Sua origem, sua vida, sua simplicidade somadas aos atributos culturais manifestados através de sua vocação musical são marcas que o identificam como legítimo herdeiro e sucessor de uma tradição que se sustenta graças a abnegados saudosistas que teimam em fazê-la permanecer de pé.

Muitos foram os que o antecederam na sublime missão de animar os eventos festivos da terra de Santo Antônio, disseminando a alegria, propagando a cultura popular como se predestinados fossem a manter os ternos de zabumba presentes na história local desde os tempos da fazenda do Arraial. Peixoto simboliza o lado profano do sincretismo religioso manifestado nas festas de largo fluido pelo veio português de nossos colonizadores, como também as lembranças tristonhas das hediondas senzalas do tempo da escravatura.

Creio que outros cronistas já se deram ao luxo de ressaltar o seu nome, e se o fizeram, certamente foi com o firme propósito de homenageá-lo como um dos expoentes vivos da cultura popular paramirinhense, assim também o faço agora com a mesma intenção de lembrar que no anonimato da vida muitos passam despercebidos aos olhos da valorização e do reconhecimento, mas o seu rastro ficará para sempre na memória dos que compreendem que a verdadeira cultura se acha na forma espontânea de fazê-la e repassá-la às novas gerações.
Discípulo assíduo e aplicado de Ziquinha Pedreiro, Sá Lió, Deca do Pajeú, Samuel de Sa Brígida, o filho da velha Hermínia tinha que ser um batuta no sopro da gaita, sua especialidade. Parceiro de Manoelzinho e Toêzinho de Procópio, Constanção e Dizé, fez carreira nos Grupos de Reisados de Paramirim criando a sua própria academia, da qual já se despontam vários seguidores, a exemplo de Chiquinho, seu primogênito, que tudo indica ser o fiel substituto do pai.

Nunca é demais lembrar que os atuais grupos que sustentam e animam o folclore local tiveram como precursores o Mestre Plinio da Cidade de Rio de Contas, João Queridão, Raul da Lagoa do Mato e Seu Maroto, verdadeiros azes da “ Velha Guarda ”, cada um com a sua especialidade, os quais as gerações atuais não conseguem imitar por lhes faltar a autenticidade.

Peixoto é do tempo das gaitas de sete furos com boquilha de cera curtida, esculpidas com a haste da taboca, como faziam os primitivos do Vale do Paramirim, os quais buscavam na natureza a matéria prima dos seus inventos, a exemplo do zabumba confeccionado com pele de carneiro, totalmente de forma artesanal.

Muitos haverão ainda de sentir saudades das tradicionais alvoradas festivas, das contagiantes levantadas de mastro, dos folguedos em louvor a Santos Reis, animados por queima de fogos, repiques de sino, ao som do zabumba, espargindo alegria, contagiando a todos com ritmos próprios, soprados na gaita, acompanhados na palma da mão, na batida dos pés, no gingado do corpo, no compasso da caixa, como um pacote de lembranças que nos remetem a tempos que jamais voltarão.

Nosso protagonista, com certeza não ficará de fora dessas lembranças, o som de sua gaita não se perderá no espaço. Seu nome deveria ser lembrado mais vezes, mais valorizado, mais recompensado. O sincretismo das festas de largo, hoje massacrado pelos ruídos mecânicos dos carros de som, tem raízes profundas, nunca perderão a consistência, como uma estrela cadente que passa deixando um rastro luminoso no espaço. Imagine que o zabumba e as gaitas chegaram as barrancas do Paramirim há quase trezentos anos e ainda vibram com o mesmo entusiasmo, a mesma repercussão, são eternas peças da criação popular entranhadas na alma e no coração de um povo.

Peixoto tem a sua história, filho de família humilde como humilde sempre foi a sua vida. Aprendeu desde cedo a trabalhar para se manter. Prestou serviços a várias famílias de Paramirim, foi menino de confiança do Sr. Etelvino Cayres e de Osvaldo Viana. Frequentou o caminho do rio, os engenhos do Recreio, o Açude da Ponte e a Lagoa da Jurema. Ensaiou os primeiros passos nos grupos de reisados da Rua de Trás. Nos idos de sessenta entra no quadro do Funcionalismo Público Municipal, como encarregado do serviço de água, formando com Nelson e Acelino, ambos já conduzidos ao andar de cima, um trio que pelos serviços prestados muito merece ser lembrado.

O seu encontro com Roberto Braga, um boêmio vindo não se sabe de onde, preconizou a sua vocação musical e o imortalizou no anedotário de Paramirim. Saxofonista de categoria, o andarilho fez amizade com Peixoto na alfaiataria de Ló. No auge das muitas farras que juntos faziam, o músico lhe passou o instrumento, pedindo-lhe que o soprasse com bastante força, enquanto nos dedos controlava as notas musicais de um conhecido choro, daí para frente Peixoto descobriu que também era artista e por isso resolveu ser tocador de gaitas.

Com esse currículo, o Floriano Peixoto de Paramirim, filho de Dona Hermínia Maria de Jesus, que se notabilizou ao pé das fornalhas do Sítio Recreio, batendo tacho, lavrando a terra, sem nenhum amparo social, aprendeu desde de cedo “ que desta vida só se leva a vida que se leva ”, por isso tratou de vivê-la sem se interessar pelas coisas que não tivessem ao seu alcance. Trabalhou, divertiu-se, construiu duas famílias, deu conta do recado.

Hoje já septuagenário e dependente de uma cadeira de roda pela amputação de uma perna, Peixoto é também um exemplo de superação. Sua participação na última alvorada da festa de Santo Antônio foi marcante. Amparado por um acompanhante, soprou a sua gaita no grupo de Reisado liderado por seu filho que agora já é de fato seu sucessor.

Brevemente outras alvoradas virão, outros eventos festivos também, novas oportunidades para os ternos de zabumba vão surgir. Por conta dessas reciclagens o folclore de Paramirim também vai se renovando, correndo de porta em porta, se apresentando de praça em praça e o mestre Peixoto de sua cadeira comandando o show, soprando a sua gaita como fazia o velho Roberto Braga no seu saxofone vai dando a sua contribuição.

Por conta disso, eu que sempre interpretei, desde os idos tempos de minha infância, que os Reisados é uma das formas mais puras de manifestação cultural, deixo aqui a minha homenagem ao Dia do Folclore, que hoje se comemora, dizendo que enquanto houver zabumba o sertão tem alegria.

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