Domingo, 16 Dezembro 2018

Rua 16 de Setembro, um capítulo à parte na história de Paramirim

O trecho da rua grande compreendido entre as praças Coração de Jesus e Santo Antônio chamava-se antigamente Rua 16 de Julho em homenagem à data do nascimento da lei estadual nº 460, de 16 de julho de 1902, pela qual a sede do antigo município de Água Quente foi transferida para a povoação de Paramirim.

Nesse antigo logradouro localizava-se a loja de Boroza, pertencente a Bernardino de Senna e Silva. É o trecho onde hoje se localiza a Agência do Bradesco.

Quase todas as cidades do Brasil têm uma rua com esta denominação, a exemplo da capital paulista. A nossa vizinha Macaúbas também possui a sua. Cada uma com as suas características, todas direcionadas à igreja matriz.

A rua Direita de Paramirim nasceu com a expansão do povoado. Era assim chamada por constituir uma linha reta rumo ao centro da povoação. Corresponde hoje ao trecho da Av. Dr. Aurélio J. Rocha compreendido entre a Praça Érico Cardoso e a Praça Coração de Jesus. Seus casarões mais antigos pertenciam a Job Marques Leão e Augusto José da Trindade. Em 1947, os dois segmentos se juntaram dando origem a Rua 16 de Setembro.

Antigo caminho, ladeado de cercas, depois, de muros, agora de modernos edifícios. Testemunho de célebres acontecimentos, palco de memoráveis episódios da história local. Teu leito de barro, amaciado pelos pés de sucessivas gerações, recebeu em meados da década de vinte, os primeiros calçamentos da vila que viu entrar nessa mesma época as primeiras “machinas rodoviárias”, os primeiros automóveis.

Rua 16 de Setembro, assim chamada por força do Decreto-lei municipal nº 122, de 11 de abril de 1947, de autoria do insigne prefeito da época Sr. Adolpho Brandão de Magalhães, trineto do Capitão Ribeiro, fundador de Paramirim.

Rua 16 de Setembro, síntese das gêmeas 16 de Julho e Rua Direita. Teu perfil, visto de longe, nos faz lembrar duas paralelas segmentadas ao longo do trajeto pelos becos que dão acesso à rua de Trás e à rua de Baixo. Teu casario, outrora parede-meia, desafiou o tempo. Despiu-se das vestes do passado, cobriu-se de modernidade para se tornar vitrine e espinha dorsal de uma urbe que não para de crescer.

Rua 16 de Setembro, passarela dos memoráveis desfiles da primavera, das inesquecíveis passeatas da Semana da Pátria, circuito do carnaval de todos os tempos. Estrada do carro de boi, da bicicleta, dos veículos antigos e modernos, do fordinho de bigode ao elegante pajero. Via cruci das procissões do Senhor Morto, na Sexta-Feira Santa, caminho dos cortejos fúnebres, das comemorações cívicas e religiosas. Via de acesso à igreja, à feira, ao mercado, ao comércio e às repartições públicas. Artéria por onde correm os sentimentos de alegria e tristeza dos paramirinhenses.

Rua 16 de Setembro, berço de ilustres antepassados. A presença de teus moradores mais antigos será sempre lembrada nas pessoas de José Augusto da Trindade, Maria Elisa de Azevedo, Miguelzinho Barbeiro, José Bonifácio Lage Brasil, Tobias Tanajura, Antônio Olinto Leão, Rui Barbosa da Silva, José Ribeiro de Azevedo, Vitor Ferreira, Joaquim de Oliveira Martins, Antônio Miranda, Hermínio Vieira de Aguiar, Hermelino José de Oliveira, Enésio Alves de Oliveira, Sá Isaura, Dona Neca, Dona Natália de Antônio Brito, José Ferreira Pessoa, Sá Mariquinha, Angélica Trindade, Júlia de Otaviano, Raul Pereira da Silva, Nezinho Moreno, Dulcinéia Medrado, Sanin, Sá Júlia, Antônio Justiniano Silva, Benzinho, Job Marques Leão e tantos outros que se foram, cada um deixando atrás de si uma história a ser contada.

Rua 16 de Setembro, rua do comércio, do armarinho de Melé, da farmácia de Seu Rui, da alfaiataria de Ló, da sapataria de Antônio Miranda, do bar de Jazon, do hotel Santa Terezinha, reservado a hóspedes ilustres e aos amigos da família. Rua da pensão de Dona Nuci, abrigo de todos os viajantes, do Bar Gaivota, da Livraria Leão de Ouro, da pensão de Maria de Seu Vito, colada à residência de Dona Cândida de Joaquim Martins, do bar de Quincas, da barbearia de Sissi, da sorveteria do Tião de Flávio, point da juventude paramirinhense na década de sessenta.

Rua 16 de Setembro, rua das repartições públicas, do cartório de Seu Tobias, da Coletoria de Teófilo Abreu Magalhães, do Grupo Escolar Prof. José Cândido Vieira, da Biblioteca Dr. Nelson Cayres de Brito, do Cine Alvorada, do Posto Cultural do Mobral, da Ematerba, do Baneb,  da Caixa Econômica, do Banco do Brasil, da CDL, da CAMAB, do Jardim Infantil, do FUNRURAL e da Central Telefônica. Teu passado, memorizado raramente por velhos saudosistas como eu, está ficando cada vez mais distante. Não importa! É a dinâmica da evolução. Cada um de nós tem o seu tempo de sentir saudades. Saudades que no dizer de Dr. Aurélio, não se dá jeito, não tem remédio.

Rua 16 de Setembro, carinhosamente chamada de rua de cima, rua grande, rua direita, rua do prédio velho, rua do correio, rua de Dr. Aurélio e de tantas outras referências nascidas na pia batismal do anonimato, repassadas de geração a geração pela tradição oral.

Rua 16 de Setembro, picadeiro do palhaço perna de pau, gritando o seu refrão: “ – Hoje tem espetáculo? ” Respondia em coro a meninada, disputando uma entrada grátis no circo: “ –  Tem, sim Senhor! ”. Rua de Seu Arquimimo Bonfim, criando enigma com a sua “quatriene eqüitativa” . Rua de Felinho, fazendo graça, de Baia de Dona Neca cumprindo recados, confusa e especulativa, de Maria e Luíza carregando a lata d’água na cabeça, numa parceria inconfundível de mãe e filha trabalhando de mãos dadas. Rua do Grêmio Litterae Paramirinhense, da garagem elite, da bomba de gasolina de Zé Vieira e do Serviço de Alto Falante a Voz da Democracia. Rua das saudosas serenatas nas noites enluaradas, dos lampiões a gás, jogados para sempre no baú do esquecimento, a testemunhar o tempo de nossos antepassados.

Rua de 16 de Setembro, da entrada triunfal do Major Felipe Cardoso, acompanhado de centenas de cavalheiros no seu retorno à vila de onde fora deportado. Rua das missões religiosas na igreja Coração de Jesus, celebradas por sacerdotes vindos de terras distantes. Rua do exótico casamento de Dona Cassiana com Pedro Cruz e das históricas eleições no José Cândido Vieira. Rua do primeiro e do segundo acidente de veículo em Paramirim. Rua das procissões de Santo Antônio. Rua por onde passou a réplica da Cruz dos 500 Anos, simbolizando a chegada do Cristianismo no Brasil.

Rua 16 de Setembro, diga-me por onde andam os teus companheiros de jornada, encarnados na voz sonora do violão de Miguelzinho, na Chiquita Bacana dos carnavais do Canecão, no Roy Rogers do Cine Alvorada, nos bailes das pastorinhas do Mestre Plínio, no pingo de leite da venda de seu Álvaro, nos platibandas de Zeca Valério. Rua 16 de Setembro porque deixamos apagar de forma tão humilhante as marcas do nosso passado? Será castigo ou maldição? Nada disso! Simplesmente não aprendemos preservar em tempo hábil a nossa cultura, as nossas tradições. Restam-nos apenas as raras lembranças dessa jornada que também aos poucos vão se esvaindo, como o som de uma melodia que se perde no espaço.

Rua 16 de Setembro, referencial maior da história de Paramirim. Data em que a Vila de Água Quente efetivou-se como unidade administrativa independente, somando-se a tantas outras já existentes na antiga província da Bahia. Sonho nutrido pelo desejo de liberdade. Sonho concretizado a bico de pena numa distante primavera que se tornou memorável, pelo seu significado histórico. Saúdo-te nos versos do grande poeta dos escravos: “Liberdade oh liberdade, abra as asas sobre nós!”...

Rua 16 de Setembro, rua do consultório de Dr. Aurélio, endereço certo de se buscar a palavra amiga, o conselho, a orientação. Abrigo dos corações em desespero. Refúgio das atribulações físicas e espirituais, refrigério da alma. Ponto do encontro matinal das mães de família, das gestantes, dos recém-nascidos, dos jovens e adultos, dos ricos e dos pobres. Lugar de se fazer o exame, a consulta, de se tomar a vacina, de ver o peso e de medir a pressão. Tua presença associada ao nome de um homem que viveu para fazer o bem está eternizada para sempre na memória de Paramirim.

Na administração do Prefeito Gilberto Martins Brito, a Rua 16 de Setembro foi rebatizada oficialmente com o nome de Av. Dr. Aurélio J. Rocha. Merecido batismo em homenagem ao seu antigo e ilustre morador. Diga-se de passagem, uma homenagem em tempo hábil, sem arrepios, sem contestação, sob a tutela da lei.

Como não poderia ser, a mudança do nome veio depois da morte do homenageado. Uma homenagem póstuma, portanto. No Brasil, ao que me parece, existe uma lei que proíbe dar à logradouros públicos nome de pessoas vivas. Se existe, quase sempre é burlada. Se não existe, que me perdoem os legisladores, deveria existir. Não tolero puxação de saco. Toda bajulação possui interesses obscuros, principalmente na política. Graças a Deus não foi o caso do tributo prestado a Dr. Aurélio, do contrário não estaria escrevendo esta página.

O projeto de lei solicitando a mudança do nome é da autoria da Vereadora Marlene Gomes de Oliveira Silva, uma profissional da área de saúde eleita pela sigla do PMDB. O pedido de mudança chegou ao Legislativo Municipal em 30 de março de 1994, sendo encaminhado na mesma data pelo Presidente Nilton Edson Tanajura à Comissão de Justiça e Redação. Após os tramites legais foi aprovado em 2ª votação, por unanimidade, em 06 de abril do mesmo ano.

Com razões suficientes para reconhecer o mérito do projeto já transformado em lei pela Câmara, o Prefeito Gilberto Martins Brito, também do PMDB, mais do que depressa, viabilizou a sua publicação, após sancioná-lo com as devidas formalidades, nascendo assim a Lei nº 02, de 06 de abril de 1994,  pela qual, a antiga Rua 16 de Setembro passou a ser denominada  Av. Dr. Aurélio J. Rocha.

Já que tocamos em denominação de logradouros públicos, peço permissão à família de nosso biografado, para fazer um lembrete aos nobres legisladores de Paramirim, no sentido de adotarem mais coerência quando forem batizar ou rebatizar uma peça do nosso acervo patrimonial. O nome de uma rua ou de um prédio escolar deve ser grafado em todas circunstâncias da mesma forma que está no corpo da lei que o oficializou. É como o nome de uma pessoa contido no seu registro de nascimento. É muito comum encontrarmos por aí nomenclaturas variadas para expressar o mesmo logradouro. Como é o caso da Av. César Borges. A lei foi aprovada com o nome de Av. Gov. César Borges, na placa de inauguração está Av. Dr. César Borges e no gigantesco painel confeccionado pela Prefeitura lê-se: Se. César Borges. É claro, o homem foi tudo isso, mas o que deve prevalecer é o que se encontra nos termos da lei, principalmente quando a escrita procede de órgãos municipais, que têm por obrigação respeitar a cultura e história local.

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Domingos Belarmino

Vasta experiência na área educacional como cronista, palestrante e historiador, possui um acervo de mais de cinco mil documentos sobre a história de Paramirim, 27 anos dedicados a história regional.

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