Sábado, 14 Dezembro 2019

A Bênção Padrinho

Dentre as tradições ligadas à Semana Santa ainda hoje cultivadas, destaco por fazer parte de minha infância o curioso costume de se visitar a casa dos padrinhos na sexta-feira santa para lhes pedir a bênção. Trata-se de um antigo hábito entranhado na cultura popular muito em voga no Norte de Minas e em várias cidades da Bahia, inclusive Paramirim. Não sabemos a sua origem, pode ter vindo de nossos ancestrais, através da colonização portuguesa. Nada tem a ver com a religião, mas só os católicos assim o fazem, principalmente as classes menos favorecidas.

Na Beira da Lagoa, bairro onde nasci e passei a maior parte de minha vida propagava-se o maior respeito pelas “ Coisas ” da Semana Santa. Logo ao amanhecer, via-se cordões e mais cordões de crianças e adolescentes, alguns acompanhados pelos pais, dirigindo-se em todas as direções, com a única finalidade de visitar a casa dos padrinhos a fim de lhes tomar a bênção, como um sagrado dever de todas as Sextas-Feiras da Paixão. Muitos não possuíam o registro de nascimento, porém, nunca lhes faltava o indispensável sinal do batismo, ministrada pela Madre Igreja, através das mãos do Vigário da Paróquia ou vindo de fora em épocas de missão.

Padrinhos e afilhados havia de sobra. Não era só os de batismo, crisma e consagração, existiam também os de fogueira constituídos na noite de São João ou de São Pedro. Os laços de consideração e respeito gerados entre ambos eram mantidos pelo resto da vida e sempre reforçados ou lembrados na Semana Santa, até mesmo através de uma correspondência, quando se encontrava distantes. Havia também os chamados padrinhos de casamento, geralmente era um casal para cada nubente, ao contrário de hoje, em nome da notoriedade, convida-se dezenas de personalidades para testemunharem um casório, dentre eles políticos e empresários, jogando por terra os princípios da consideração, assim penso.

Na Sexta-Feira Santa, a primeira bênção se tomava dos pais. Recordo-me, como se fosse hoje, das benditas palavras dirigidas por minha mãe a mim e aos meus irmãos, ao lhe estendermos as mãos em busca de sua bênção. A frase era singela, mas significativa “ A Sagrada Morte Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que te Abençoe, meu filho ”, tempo em que nos fazia na fronte o sinal da cruz. Daí para frente, estávamos liberados para o café com massa e a costumeira visita aos padrinhos. Ressalvo o direito de dizer que nasci numa terça-feira e fui batizado num sábado, com oitenta e seis dias de vida, e me deram o nome de Domingos. Meus padrinhos de batismo Antônio Justiniano Filho e Augusta de Magalhães e Silva, primo e tia respectivamente se mandaram para São Paulo, no final da década de quarenta. Os de crisma, dois conterrâneos da Beira da Lagoa, também se foram e nunca mais voltaram. Ficaram apenas o de consagração e de fogueira a quem tive consideração de visitar várias vezes. O primeiro faleceu em dezembro de 1922, o segundo ainda vive a quem visito periodicamente, sem as cerimônias de outrora.

Com esse histórico, razões tenho o suficiente para dizer que na Beira da Lagoa dos meus anos dourados, vivenciei este secular costume de todas as Sextas-Feiras Santas. Naquele tempo dava gosto ver o desfile dos afilhados levando consigo os mais variados presentes para os seus padrinhos e deles recebendo o que eles podiam dar. Por não haver naquela época as lembranças sofisticadas de hoje, o jeito mesmo era oferecer um frango dos mais sevados do terreiro, uma abóbora, um corte de vestido, um vidro de água de cheiro, uma atoalha de rendas ou uma vistosa melancia da lavoura. Por mais pobre que fosse a família, sempre possuía alguma coisa a oferecer.

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Domingos Belarmino

Vasta experiência na área educacional como cronista, palestrante e historiador, possui um acervo de mais de cinco mil documentos sobre a história de Paramirim, 27 anos dedicados a história regional.

A Paramirim Eventos publica, compartilha e distribui informações sobre Paramirim, eventos, entretenimento, tecnologia, ciência e cultura.

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