Paramirim: Origem e evolução da Praça do Rosário

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Paramirim: Origem e evolução da Praça do Rosário

Imagine se você estivesse no final dos anos quarenta no belo logradouro de Paramirim, hoje conhecido como Praça do Rosário. Atualmente, considerado um recanto saudável, ajardinado, rodeado de modernas construções em torno da sua centenária capela. Mas, para quem a conheceu e viveu naquela época, jogando bola de meia no seu primitivo leito, como eu e tantos outros que ainda guardam essas lembranças, podemos afirmar categoricamente que tudo era diferente nos seus aspectos gerais. Muito difícil de se comparar com a realidade de hoje.

Basta dizer que na época a que me refiro, o quadrilátero em redor da capela do Rosário possuía nada mais, nada menos do que sete ou oito casas, dentre as quais se destacavam a presidência do Senhor José  Katulé com fundos voltados para a Lagoa e as duas que aparecem visivelmente na foto que ilustra esse pequeno relato, cujo proprietário mais tarde foi o Sr. Chico de Dulce, pai do nosso amigo Juraci.

Totalmente despido de qualquer benefício, o chão dessa praça era íngreme e esburacado, pontilhado de moitas de algodão de seda por entre as quais a molecada do bairro improvisara um campinho de pelada no qual jogávamos descalços enfrentando o sofrimento do espinho comunista, flagelo para quem não tinha se quer uma alpercata para servir de proteção aos pés. Tempo difícil, mas com belas recordações.

Um de seus primeiros benefícios foi a iluminação termo- elétrica, inaugurada em 26 de fevereiro de 1952 pelo então prefeito Érico Caires Cardoso. Por conta desse progresso, o local que durante o dia era ” praça de esporte “, à noite se transformava em arena para o esconde-esconde, o chicotinho queimado, o boca de forno, o balança caixão e tantas outras brincadeiras de ruas que se foram sem se despedir de ninguém para nunca mais voltar, deixando em seu lugar apenas a saudade.

Não pudemos falar dessa época sem nos referirmos às novenas do Rosário, sempre realizada ao longo do mês de outubro como uma das festas mais movimentadas do calendário religioso de Paramirim. Com o esconde-esconde e a ura mandura foram embora também as mesas de leilões, os foguetes de rabo, as quermesses e os casais de namorados circulando em volta da capela como se buscassem dar a volta olímpica nas disputadas partidas do amor, mesmo que fosse apenas para se tocar nas mãos.

Ao nascer dessa praça, a contar da última década do século XIX, quando nela se construiu a sua capela pelo dinâmico empreendedor Pedro Celeiro, progenitor da família Bittencourt no Vale do Paramirim. nela passará s viver importantes moradores a exemplo de Pedro Manuel Jacinto, Otaviano Teles de Souza, Sa Dedê, Joaquim de Angélica ( latoeiro ) João Neves ( um dos primeiros proprietários de caminhões de Paramirim ), Procópio, José de Fia, João Brasileiro, Odilon  Azevedo, Belarmino Jose de Oliveira, Antônio Marques da Silva e  tantos outros  que se sucederam no tempo e no espaço, os quais fizeram desse logradouro  um centro residencial de destaque no coração da cidade.

Por longos anos, quando tudo girava em torno do Clube e do Brás, o movimento da Praça do Rosário e adjacências se sustentava no Posto Cardoso comandado por Laércio Brito. Ali se fazia de tudo, troca de óleo, serviços de borracharia. abastecimento e a noite os parceiros da bisca, liderados por Zé de Fia se reuniam até ao primeiro sinal da luz para jogar cartas e conversa fora. O Posto Cardoso era o centro das atenções de Paramirim, bastante visitado pelos proprietários de veículos e caminhoneiros por isso mesmo suas imediações ficaram conhecido como o Brás em alusão ao dinâmico bairro da cidade de São Paulo.

Como falar da Praça do Rosário sem lembrar a Residência Agrícola da Comissão do Vale do São Francisco e do Auditório Municipal, este último construído em 1978/79 e demolido mais tarde para ensejar a urbanização definitiva do local, alcançando o formato que hoje possui. Não foram poucos os detalhes a ela acrescidos em contribuição à sua beleza, ao seu ornamento e à sua história a qual não podemos prescrever sob pena de sermos meramente insensíveis com a nossa memória.

Infelizmente a trajetória de uma cidade também possui o seu lado triste e às vezes cruel. Na década de Cinquenta (1958) aconteceu nesta praça bem em frente ao terreno vazio mostrado na fotografia o hediondo crime no qual aparece com vítima Enéas Moreno e como autor do delito Djalma dos Santos, ambos motoristas de caminhão, fato que ficou perpetrado na história local por ter ensejado a consumação do primeiro júri da comarca.

Como bem prova o seu estágio atual, o que antes era apenas um embrião, formado  por um punhado de  rarefeitas  residências voltadas para o Rosário de sua Capela, num lugar quase ermo e desprovido de beleza, hoje, ostenta-se como um dos mais belos logradouros da Terra do Rio Pequeno  concorrendo para o seu esplendor com belas construções, um moderno jardim, bem pavimentado, onde as pessoas se reúnem não mais para jogar pelada nem brincar de ura mas para sentir o sabor da convivência humana ao bel prazer de cada uma.

Assim, de um fôlego, deixo nesse entardecer de domingo, esse modesto relato sobre a origem e a evolução da pracinha do Rosário, como uma pequena contribuição à sua história, que também é a história de Paramirim, esperando que de certa forma sirva como referência para as gerações vindouras. Deixo também os meus agradecimentos e elogios ao Sr Robério Neves pela postagem da foto que deu asas a esse singelo registro dizendo mais uma vez que felizes são aqueles que escrevem nas pedras do caminho, deles a posteridade terá conhecimento.

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