O poder do apito

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O poder do apito

Mais uma vez volto a dizer que as coisas valem pelo que elas sugerem e não tão somente pelo que elas são na realidade. Vivemos no mundo da relatividade. O absoluto vai se fragilizando cada vez mais, cedendo espaço ao relativo. Use a sua reflexão e nos acompanhe na descrição abaixo.

O apito, por exemplo, enquadra muito bem nesse conceito. Trata-se de uma invenção milenar. Talvez, bem mais antiga que a roda. Sua modernização se atribui ao inglês Joseph Hudson, isto por volta de 1883.

Daí para cá o seu uso vem se tornando cada vez mais diversificado. Já foi usado pelos caçadores da antiguidade para chamarem os seus cães, pelos guardas, para advertirem alguém, para imitar pássaros, para substituir o assovio, marcar encontros, ou denunciar a eminência de um perigo. Tudo depende de uma combinação prévia.

O apito antecedeu o futebol, mas sem ele esse esporte não funciona. Para uns representa o alívio, para outros a tristeza, a decepção da derrota. É a voz do árbitro no início, no decorrer e no término de uma competição. Fala mais alto na hora do pênalti, do arremesso e do gol. Faz a torcida chorar, indignar-se ou explodir de alegria.

Nos lábios de uma criança é apenas um objeto sonoro, um brinquedo, uma diversão. No trânsito, um instrumento vigoroso de disciplina. A depender do sílvio faz o motorista parar, estacionar para ceder a vez ao pedestre. Na escola de samba controla os passos e os movimentos dos pelotões. Com ele os guias conduzem os turistas de várias nacionalidades. Sua linguagem é universal.

Os índios brasileiros também usavam o apito na caça, na guerra e na diversão. Não podemos esquecer que esse singelo objeto, alguns deles cilíndricos, outros ovais, de plástico, de madeira ou mental, coloridos, leves e relativamente de baixo custo, também serviu de tema de uma música carnavalesca nos anos 60 (Índio viu presente mais bonito, índio quer colar, índio quer apito). A expressão, aqui você não apita nada, significa autoritarismo de uns e subserviência de outros.

Se soprado por uma só pessoa é simplesmente um apito, mas quando assoviado por uma multidão torna-se um apitaço. Um barulho que constrange, adverte, critica, ofende e repudia. O apitaço carrega multidões pelas ruas, focando a mesma mensagem. É a voz de comando dos oprimidos, o sílvio dos que não têm medo, a flecha sonora que penetra os ouvidos dos patrões, dos governos, dos políticos e empresários. É uma poderosa arma da democracia que só perturba os ditadores.

Avante Brasil! Avante Bahia! Avante Paramirim! Apitaço neles. Principalmente naqueles que exploram e aproveitam da inocência do povo, dos corruptos e dos traidores da pátria. Onde a voz humana é impedida de chegar, o sílvio estridente do apito ou do apitaço chega com força total. Um povo unido de apito nos lábios, convicto de seus ideais é capaz de vencer um exército. Pois se um apito incomoda muita gente, centenas, milhares e milhões deles incomodam muito mais.

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