O mutirão na cultura do sertanejo

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Operários reunidos para o começo dos trabalhos

Realizar mutirões para executar tarefas de grandes proporções faz parte dos costumes do sertanejo. Vizinhos, amigos, parentes e até mesmo desconhecidos se reúnem no mesmo horário e no mesmo local predeterminados. Num piscar de olhos, e muita solidariedade, o que se gastava vários dias para se fazer, fica pronto em poucas horas.

O princípio é muito simples. Da união nasce a força em busca de importantes soluções. Assim é no preparo de um terreno para a lavoura, na limpeza de uma aguada, na construção de uma moradia, nos preparativos de uma festa, e tantas outras atividades que exigem o concurso de várias pessoas.

Assim a construção civil prevalece desse princípio para dar contas de uma das tarefas mais pesadas de um canteiro de obras. Além de dispendiosa, a batida de uma laje, pré-moldada ou de cimento armado, exige esforços, prática e rapidez dos operários que atuam nessa área por ser um trabalho extenso e cansativo. Esforços este que muitas vezes extrapolam os limites das condições humanas. Onde o guindaste não chega, tem que se valer da força dos braços e nesse particular a peãozada não perde para ninguém.

Imagine um prédio com três pavimentos, a uma altura de aproximadamente 12 metros para se levar 27 mil quilos de concreto (areia, brita e cimento) até o topo da terceira laje usando apenas a força humana. É mais do que uma façanha. Sem o concurso do mutirão não seria possível

As seis horas da manhã a galera se reúne no pé da obra. Duzentos metros quadrados de laje no último andar estão prontos a receber os primeiros lotes de concreto. São 35 trabalhadores entre serventes e pedreiros de mangas arregaçadas para darem conta do recado. A betoneira é acionada. Uma fina garoa molha a paisagem urbana desprovida de sol. A euforia do labor toma conta do ambiente. Escada acima, um conjunto de setenta braços se revezam num subir constante de baldes carregados de massa. Enquanto a pilha de material diminui, o pano escurecido de concreto vai se compactando no topo da construção sob o olhar fiscalizador do mestre de obra tomado pela satisfação de estar concluindo mais grande feito.

Por essas e outras razões, aqui no sertão e bem mais à frente, onde o vento faz a volta, o esforço físico ainda prevalece. Se não se tem os modernos mecanismos da construção civil, o jeito mesmo é remediar com a força dos braços conjugando o princípio que dá união nasce a força. Nesse desafio, a cultura dos mutirões é a salvação da lavoura

Quatro horas depois, o serviço está concluído. “ Sem nenhum incidente ”, comenta o dono da obra. Ao todo foram 3.500 kg de cimento, 10.500 kg de brita e 11 toneladas de areia, adicionados a 2.000 litros de água. “ Passados de mão em mão até chegar ao destino final, sem um minuto de folga ” conclui o velho pedreiro.

Mas a festa ainda não terminou. Ou melhor, agora é que vai começar. Trabalho concluído, comes e bebes a postos. Os baldes e tambores grudados de massa cedem lugar aos alvos pratos e colheres para se dar conta de uma saborosa feijoada irrigada de cerveja e refrigerantes, sem os quais não se pode falar em mutirões. Enquanto isso, lá fora, a fina garoa continua a molhar os paralelepípedos da rua, que dentre em breve terá mais uma obra inaugurada.

Momento dos comes e bebes
Momento dos comes e bebes
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