O giro da Bandeira nos tempos idos de Paramirim

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Colégio ACM em Paramirim diploma sua última turma

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Diz a exausta senhora batendo à porta, como se fosse uma velha conhecida da casa.

Para sempre seja louvado! Responde a moradora, dando a entender que a visitante era bem-vinda, como de costume.

Diálogos como este por mais de uma vez ouvi na residência dos meus pais, nos idos de minha infância e tantos outros ainda na minha adolescência. Era como se todos seguissem o mesmo ritual e tivessem que rezar a mesma cartilha.

Quando a bandeira de qualquer Santo despontava no início da rua, a meninada corria para casa a fim de dar as boas novas à família. Cada anunciante se sentia extremamente feliz por o mensageiro da boa nova. Lá vem a Bandeira! Era como se fosse pedir as alvíssaras da chegada de alguém da maior importância, do respeito e da consideração de todos da casa.

Quase sempre a bandeireira era uma senhora já de idade. Não importava a cor, a procedência ou a época do ano, tinha que ser categoricamente uma senhora de idade para infundir o respeito que a nobre missão exigia.

Trazia no rosto o pó das andanças e sobre a cabeça o xale derramado sobre os ombros, peça chave da indumentária feminina não só para se resguardar da inclemência do sol, mas sobretudo para demonstrar determinação, resignação e lealdade da sertaneja perante a sua própria condição de mulher.

Quando uma bandeira adentrava uma sala era ritualmente recebida pela dona da casa. Tê-la nas mãos era sustentar um troféu conquistado pela fé, no sagrado gramado da devoção. Mamãe sempre foi devota do Anjo da Guarda, rezou a ladainha de São João Batista por mais de quarenta anos e nunca deixou de reverenciar o registro de qualquer Santo ostentado numa bandeira.

Beijava o Santo ou a Santa reverenciada na mais das vezes ajoelhada, tamanha era a sua contrição de fé. Todos seguiam os mesmos passos, enquanto ela levava a todas as dependências da casa a bandeira visitante buscando a bênção para a família, inclusive para meu pai a quem competia pagar o óbulo da visita.

Nunca faltava a boa recepção, os agradecimentos e o tradicional cafezinho com bolo para os visitantes que na mais das vezes também levavam uma prenda para o leilão da entidade festejada. Tudo se fazia numa troca recíproca de gentilezas, com muita naturalidade em que cada gesto e cada palavra traduzia o sentimento cristão.

O giro da Bandeira, de comunidade em comunidade, de casa em casa, quase sempre acompanhado de uma pequena orquestra, tinha por finalidade, fiquei sabendo mais tarde, arrecadar esmolas para a igreja fosse qual fosse a sua o Santo festejado, principalmente os eventos do padroeiro.

Hoje pela manhã, quase caduco, depois de anos dobrados, fiquei muito emocionado, ao assisti ao vídeo do giro da Bandeira de Nossa Senhora da Graça pelos lares da região. Lembrei-me de tudo que vi na minha infância, na aurora da minha vida. Vi mamãe ajoelhada e ao seu lado uma escadinha de filhos e todos beijando, um após outro, a sagrada bandeira que adentrara a nossa casa também acompanhada de músicos. Uma bandeira de seda encimada por diversas fitas coloridas, conduzida por uma idosa senhora, que após bater à porta disse em voz alta: Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Todos nós lá de dentro respondemos a uma só voz: Para Sempre Seja Louvado.

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