O dia da mentira

0
5984
O Dia da Mentira

Diante de tantas pegadinhas que acontecem por aí a fora e aproveitando-se do ensejo da data de hoje, vamos falar um pouco sobre o dia 1º de abril, consagrado em diversos países do mundo como o Dia da Mentira, dos mentirosos, dos bobos ou dos tolos, conforme reza a tradição. Se temos uma data distinta para o folclore, a alfabetização, as ações de graças e a primavera, por que não homenagearmos também “o bicho das pernas curtas”, os enganadores ou os falazes.

Há muitas explicações para essa data ter se transformada no dia da mentira. Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França do século XVI. Nessa época, o ano novo era comemorado no dia 25 de março e as festividades só terminavam no dia 1 de abril. Quando em 1564, o rei Carlos IX deste pais adotou o calendário gregoriano e determinou que o ano novo fosse comemorado no dia 1 de janeiro. Zombadores passaram a ridicularizar o dia 1 de abril enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam.

No Brasil, o primeiro de abril começou a ser difundido em Minas Gerais, onde circulou A Mentira, um periódico de vida efêmera, lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. A Mentira saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.

Em Paramirim, o grande boom dessa data também aconteceu. Conta-se que no tempo do coronelismo, lá pelos idos de trinta, um certo mandatário do município de Macaúbas, querendo pregar uma peça ao Coronel Francisco Brasil Rodrigues da Silva, enviou-lhe uma correspondência avisando que no dia primeiro de abril (não sabemos o ano) uma comitiva do Governador da Bahia iria passar por Paramirim, em visita extraoficial.

Sem nunca imaginar que fosse uma pegadinha, o coronel Chiquinho, então chefe político do município, querendo se passar como zeloso administrador, convocou um grande mutirão de trabalhadores braçais e por dois dias e duas noites mandou limpar as entradas da vila e varrer as ruas por onde iriam passar os visitantes, os quais seriam saudados com fogos de artifícios, pétalas de rosas e água de cheiro, isto sem se falar num apetitoso banquete com leitoas tostadas e muita carne no espeto para a grande recepção.

Após constatar que tudo não passava de uma balela, o respeitável coronel de Paramirim ficou fulo da vida e por conta desse picante incidente rompeu amizade com o vizinho pelo resto da vida, quem sabe, para mostrar que brincadeira de mal gosto não se admite em hipótese alguma, principalmente, quando se trata de homens de bigode e de vergonha na cara, como eram os coronéis de antigamente.

Dessa forma os anos se passaram, a população mundial cresceu e as mentiras se agigantaram em todos os campos do fazer humano, nos lugares mais inusitados, com temas os mais diversificados, envolvendo pessoas de todas as classes sociais, mas sempre colocando o 1 de abril como o referencial de sua comemoração.

Lembramos ainda que a mentira no decorrer dos anos também se sofisticou. Já não é mais o recado, o bilhete ou uma simples nota na imprensa, nem tão pouco a conversa de boca a boca, o veículo de sua divulgação, como se fazia antigamente. No mundo moderno, a mentira perdeu as suas pernas curtas e ganhou asas velozes nos corredores da internet. O seu poder tornou-se mais abrangente, mais rápido e mais envolvente. Os programas de pegadinhas se multiplicaram na TV, os filmes de ficções são os mais premiados e os fatos históricos são constantemente alterados por conta dos diferentes pontos de vista de sua interpretação.

Hoje em dia, o seu principal parceiro são as redes sociais. Os sofisticados aplicativos criados na internet e, principalmente, a popularização do celular, facilitando em curta fração de tempo uma mentira ou uma verdade atingir milhões de pessoas em diferentes partes do mundo, fizeram com que os acontecimentos sejam divulgados em tempo real, ganhando assim mais forças em todos os sentidos.

Por conta disso, é muito justo que o primeiro de abril continue sendo o dia da mentira, da pegadinha ou da balela, não importa o nome. Sua continuidade deve permanecer, inclusive ser inserido no calendário nacional como uma efeméride oficial. Somente assim, pode-se homenagear a todos que contribuem com a sua criatividade e divulgação desta manifestação da natureza humana solidária a tudo aquilo que é o oposto da verdade. Ressaltamos apenas o direito de dizer que sempre estamos ao lado daqueles que optam por uma brincadeira inofensiva, sem ferir os costumes ou a pessoa de alguém, não importa as circunstâncias.

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui