No tempo das melancias

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No Tempo das Melancias

Tempos bons aqueles, dizia a velha Sinhá, debruçada na janela, em conversa com as pessoas do bairro. Mal raiava a madrugada, nos dias de sábado, iniciava-se o desfile de carros de bois repletos de melancias para a feira de Paramirim. Tempos bons e de fartura, que jamais voltarão, argumentava nossa observadora com um certo ressentimento. Era uma dádiva divina, tamanha a generosidade da natureza.

Nós que morávamos na Beira da Lagoa, portal de entrada e saída de Paramirim, somos testemunhas disso. Dona Sinhá estava coberta de razões. A partir de novembro, no mais tardar dezembro, a feira da praça Santo Antônio recebia tudo que o campo produzia. Do maxixe ao feijão verde, do araticum à jabuticaba. Tudo de forma copiosa e da melhor qualidade.

O carro de boi e os animais de carga davam conta do recado, como os únicos meios de transporte da zona rural para a cidade e vice-versa. Nada de cheiro de gasolina, nem muito menos agrotóxico. As lavouras produziam naturalmente, ofertando frutos saudáveis, sem nenhum risco de contaminação. O campo era de fato o celeiro da cidade e Paramirim produzia do sal ao ouro.

Cordões de mulheres de todas as idades coroadas com balaios de frutas, ovos de galinha caipira, azeite de mamona, mel de abelha, raízes medicinais, se enfileiravam pelas vias públicas rumo à feira em busca de alguns trocados no exercício da sobrevivência, todas elas donas de si, independentes nos seus afazeres, corajosas nas suas ações, humildes na sua maneira de ser. Verdadeiras heroínas do anonimato, vivendo do seu trabalho, sem nenhum amparo governamental.

No grande circuito da roça para a cidade, principalmente no caminho da feira, o carro de boi carregado de melancias falava mais alto. Era o carro chefe do pedaço, possante, solidário, prestativo e econômico, sempre pronto a dar conta do seu recado, a desempenhar as infinitas tarefas no dia-a-dia do campo. Não poluía, não congestionava o trânsito, nem causava constrangimentos. Muito pelo contrário, valia a pena vê-los gemendo sobre os eixos, rasgando o barro da estrada, levantando poeira do chão, como fiel ajudante do agricultor.

Os carros de bois repletos de melancias produzidas no Grama e no entorno dessa comunidade possuíam cadeira cativa na feira de Paramirim. Hora marcada para chegar e lugar certo para estacionar. Por isso tinha que madrugar a viagem. Dava gosto ver o conjunto de frutas reluzentes, esverdeadas, redondas e cumpridas à espera do freguês, prontas a serem partidas e saboreadas na palma da mão. A molecada sempre fazia uma “ vaquinha ” para comprá-las. Corriam para as calçadas da igreja e as grandes fatias vermelhas como sangue, dentro de poucos minutos estufavam a barriga, provocando hilariantes arrotos. Era a farra das “ meloias ” de todos os sábados, sem sombra de dúvidas repetidas todos os anos, pelas gerações afora.

Naquele tempo, acrescentava a nossa saudosista, na feira encontrava-se de tudo. As bruacas de laranja, os balaios estufados de umbus, cestos e mais cestos de verduras, sacos de polvilho, o que comer havia de sobras. Podia faltar o dinheiro, mas o mantimento não faltava, tudo produzido na lavoura local. No paiol, a rapadura passava de uma safra para a outra. O boi era sevado com capim bengo e a sua carne era bem mais gostosa. As frutas apodreciam nos pés. É incrível, mas é uma realidade, até a abobora que comemos hoje vem de fora. Essa dependência econômica precisa ser mudada.

Na década de sessenta, Paramirim foi catalogado como o quinto maior produtor de melancias do Brasil, todas elas, na sua grande maioria, provenientes das terras esbranquiçadas do povoado do Grama e adjacências. Com o passar dos anos, declinou-se a produção e essa benévola fruta passou a ser mais um produto importado a se vender nas feiras livres da região. Por isso é que corroboro as palavras da velha Sinhá, “ bons tempos aqueles que se foram. ” Nem mesmo a suculenta “ cervejinha de caroço ”, produzidas na rama integra o elenco de nossa produção agrícola atual. Viramos um campeão de exportação de divisas. Importamos tudo que consumimos.

Necessário se faz, portanto aprofundarmos o sulco do arado, refazermos a cunha das enxadas, recompormos os registros das máquinas de plantar, retomarmos o que se deixou de se fazer ao longo das últimas décadas para que voltemos a produzir. Nossa agricultura está desassistida e agonizante. O campo perdeu os seus atrativos. Deixamos de ser o celeiro do sertão. É preciso que se inclua no foco das prioridades administrativas a retomada das atividades agrícolas. O setor primário da economia de Paramirim clama por um novo direcionamento.

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