Nas entrelinhas da história

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Ulysses Cayres Britto, no Açude do Zabumbão - Crédito da imagem: Globo Rural
Ulysses Cayres Britto, no Açude do Zabumbão – Crédito da imagem: Globo Rural

Nesse momento em que a sociedade de Paramirim vive o impacto causado pela polêmica decisão do Governador do Estado compartilhar as águas do Zabumbão com outras cidades circunvizinhas, busco nos alfarrábios dos meus arquivos alguma coisa de concreto para especar as minhas convicções sobre o assunto, mas com a certeza que dentro desse angu existe um indigesto caroço, o qual nem depois de triturado passa na garganta daqueles que conseguem ver o que se passa nos bastidores da história local.

Mesmo assim, continuo a pesquisar. De papel em papel, de foto em foto, vou caminhando na história. Como se movido fosse por uma força magnética, acabo esbarrando-me na reportagem levada ao ar em 22 de março de 1987 pela Rede Globo e Televisão a qual ficou conhecida como Paramirim no Globo Rural. Uma excelente matéria feita pelo repórter Ivacir Mathias, reprisada em 1988 em toda a sua integra.

Logo no começo do vídeo, deparo-me com a carismática figura do Sr. Ulysses Cayres Britto, sentado à margem do velho Açude do Zabumbão fazendo o seu depoimento numa postura a meter inveja a qualquer diplomata – chapéu Panamá, óculos de graus e camisa de mangas compridas –, aliás, indumentárias estas das quais não se abdicava, quando assim fosse necessário se apresentar.

Como que num passo de mágica, desligo o vídeo, achando que encontrei o que procurava, pois num momento de incerteza, nada melhor do que evocar a lembrança de um cidadão que na vida foi agricultor, pecuarista, caixeiro, comerciante, funcionário público municipal, conselheiro dos menos favorecidos, rábula, funcionário do BANFEB, secretário do Colégio de Paramirim, Presidente da Fundação de 16 de Setembro, historiador, orador de mão cheia, udenista conservador e prefeito por quatro anos de sua terra natal. Um autodidata exemplar. Da sua lavra, li no original centenas de correspondências, ainda com as ortografias da década de trinta e quarenta, e com muita sinceridade, declaro que não encontrei sequer um erro de português, tanto na forma de escrever as palavras, como na sua representação sintática dentro do contexto.

Os vocativos empregados nas suas correspondências (ofícios, memorandos, telegramas e outros) dirigidos a qualquer pessoas, desde o lavrador ao Presidente da República, sempre de forma respeitosa e concisa, mostram o tom da sua sutileza e as nuances do seu diálogo de homem civilizado, culto e experiente no tocante à comunicação. Quando dirigia a uma autoridade, sempre concluía dizendo da mais alta consideração e do meu subido apreço. Com essa performance foi secretário do Cel. Chiquinho, de Dr. Aurélio, Cel. Leopoldo Leão, Dr. Edgar Medrado e Erico Cardoso, ajudando a escrever a história local com o máximo de precisão e transparência.

Como gestor do município de Paramirim no biênio 1955 – 1959 pela antiga UDN, foi considerado um modelo no trato da coisa pública, jamais superado por quantos o antecederam e sucederam. Como tal, representou, a convite, o município de Paramirim no IV Congresso Nacional dos Municípios realizado na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 27 de abril e 05 de maio de 1957, sendo assim o primeiro prefeito de nossa terra a visitar oficialmente a Capital Federal, quando esta ainda era na Cidade Maravilhosa.

O que o Sr. Ulysses fez, falou, apresentou ou reivindicou nesse encontro, não sabemos, mas a verdade é que depois de reassumir o cargo, em boas mãos deixado na pessoa do Presidente da Câmara Sr. Antenor Domingues de Madureira ( um riopirenhese de valor ), teve um grande reconhecimento por parte dos representantes locais. Na sessão da Câmara de Vereadores de 14 de maio do referido ano Dr. Aurélio Justiniano Rocha ( PSD ) “ com expressões sinceras e patrióticas solicitou que fossem constado em ata e levado sob oficio ao conhecimento do Executivo Municipal, os votos de louvor e agradecimentos da Câmara pela unanimidade que na oportunidade dirigia a sua excelência pela maneira brilhante e eficaz como se conduzira no referido congresso, propugnando pelas mais altas reivindicações do município de Paramirim ”. Dias depois, Ulisses Britto responde através de oficio agradecendo os elogios da moção, enfatizando que outra coisa não fez senão representar com SINCERIDADE a vontade do seu município além fronteiras do Estado da Bahia, honrando o cargo para o qual foi eleito.

Pena que grande parte da juventude de hoje não mais se espelha nos homens de bem da sociedade. Razão pela qual, pergunto: Como serão os representantes de amanhã? Exemplos já temos de sobra.

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