Na mesa de buraco: recordação dos anos dourados de Paramirim

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Na mesa de buraco: recordação dos anos dourados de Paramirim
Trecho da Av. Dr. Aurélio Justiniano Rocha, onde localizava o hotel Santa Terezinha

Até o início dos anos setenta, a televisão ainda não havia chegado a Paramirim. Por volta das vinte e três horas, desligava-se o motor da luz e a cidade ficava às escuras. A diversão noturna resumia-se em frequentar o Cine Aliança nos finais de semana, dar meio mundo de voltas no jardim da praça Santo Antônio ou tomar um refresco na Sorveteria Alvorada, que recebeu este nome em homenagem ao palácio de Brasília. Bailes no Clube social somente nas datas comemorativas.

Para os que não se davam ao luxo dessas atrações, a melhor opção era a mesa de buraco ou uma partida de snooker no bar de Bilito, na rua da Vereda, hoje, Av. Dr. Nelson Cayres de Brito. No meio dessa quietude, Paramirim era feliz e não sabia. O estilo provincial falava mais alto. Dava gosto ver as pessoas sentarem-se à porta da rua para contar casos, trocar idéias e passar a limpo os acontecimentos do dia. O sensacionalismo de não se ter nada para comentar, senão as notícias ouvidas pelo rádio e os casos corriqueiros de uma cidade embalada na rede da mesmice, exigia que qualquer fato por mais banal que fosse, tinha que ser mastigado e remastigado, contado e recontado, quantas vezes fosse possível, para suprir a falta de novidades.

Para matar um pouco a saudade dessa época, vamos pegar uma carona no bonde das recordações e descer no Hotel Santa Terezinha, onde funcionava a roda de buraco mais tradicional de Paramirim, digna de ser peruada pela importância de seus personagens, pela rivalidade de seus protagonistas e pelos comentários entabulados antes, durante e depois do jogo. Em torno dela, falava-se de política, de negócios e da vida alheia, na base da seriedade ou da gozação, a depender da intenção do interlocutor. Críticas e elogios não faltavam. Louvores a quem de direito, reprovações a quem merecesse. Não importava o alvo. Interessante era ter algum assunto para se comentar. Ao seu redor discutiram-se grandes acontecimentos de Paramirim. Falaram da criação do ginásio, da instalação e funcionamento da Residência da Comissão do Vale do São Francisco, da inauguração do clube e do sonhado projeto de construção da Barragem do Zabumbão. Muitos se foram sem vê-lo concluído. Pena que nada ficou registrado para a posteridade. Pudera! Em mesa de jogo o que se fala não se escreve. Desculpe a incoerência se estou a fazê-la. Alguém pode até contestar as memórias aqui rabiscadas, ou toma-las como grosserias e inconsistentes, não faz mal. Que fique o dito por não dito para os cépticos. Nem toda semente que se lança à terra germina. Pássaros que nada cantam são os que mais destroem. Sem a intenção de ferir ninguém, ao contrário do que muitos fazem, ressalto dizer que houve momentos da história de Paramirim que precisam ser contados sem regras e sem formalidades e, assim, aproveitando estas mal traçadas linhas, vou extravasando as minhas lembranças no meu modo simplório de escrever.

A mesa de buraco do Hotel Santa Terezinha era da elite paramirinhense. Uma espécie de círculo fechado, restrito a um grupo seleto de amigos. Nesse tempo mulheres não jogavam baralhos, não frequentavam bares, nem saiam sozinhas à rua. Qualquer atitude contrária a esses costumes gerava longos comentários. Se fosse casada, a censura era mais severa. Nos bailes do clube, as moças compareciam acompanhadas dos pais, mesmo que fossem maior. Havia um ditado que dizia: Mulher é como pedra preciosa, quanto mais se esconde mais preciosa fica. Como não existia telefone nesse tempo, os namoros tinham que ser intercambiados por terceiros ou através de cartas e bilhetes. Muitos ainda lembram os famosos recados escritos em folhinhas do caderno espiral com palavras resumidas e letras bem bordadas. Na mesa do jogo a que me refiro, não havia espaço nem para mulheres, nem para jovens, nem muito menos para estudantes, apesar de ser extremamente familiar. Dela faziam parte alguns professores e ninguém ousava desviar a atenção da juventude para esse tipo de diversão. Além do mais, o respeito devotado pelo aluno ao mestre não lhe permitia sentar-se com o seu superior numa mesa de jogo. Ensinava-se através de fatos. O jogo de cartas para muitos era um péssimo exemplo.

Na plêiade de seus frequentadores, havia pau para toda obra. Vê-los jogar era mais divertido do que participar do próprio jogo. Ás vezes, pergunto a mim mesmo qual a sensação que se tem em passar horas a fio peruando um jogo de cartas, se o interessante num jogo é jogá-lo. Em jogo de baralho peru não dá palpites. Acompanha as jogadas, simplesmente. Quem está jogando o faz com as mãos, interage com parceiros e adversários. O peru joga com a mente. Diz de si para si, se fosse eu jogaria esta carta ou ficaria com aquela outra, e assim, vai transando na sua mente uma espécie de masturbação capaz de envolve-lo o tempo todo do jogo, sem torcer para ninguém. Como consequência disso, aprimora seu aprendizado se enveredando cada vez mais no vício. Dessa forma, é no baralho, no dominió, no xadrez e até mesmo no jogo da vida. Muitos desenvolvem suas habilidades através da observação direta, contínua e constante. Na casa de seu Tobias os perus eram tantos que pareciam uma plateia. Cada jogador trazia dois ou três pendurados ao seu pescoço. O prejuízo ficava sempre com o anfitrião, além do gasto de energia, tinha que servir mais cafezinhos.

No rol dos fumantes enquadrava-se a maioria do grupo. Naquele tempo, ainda não existia o slogan fumar faz mal à saúde. Passando em revista a peculiaridade de cada um, a começar pelo dono da casa, ousamos dizer que Tobias Tanajura, o mais idoso da turma, fumava pra ninguém botar defeito. Chegou a Paramirim no inicío da década de quarenta para ocupar o importante cargo de Escrivão dos Feitos Cíveis e Criminais, nele permanecendo por mais de trinta anos. Ao lado de Zaiter e Dr. Aurélio, formava o trio rio-contense mais conhecido da cidade. Seu Vitor também era da terra do pequi, não fumava, nem gostava de jogo, ao contrário do seu irmão Júlio Ferreira, um apaixonado pelo futebol. Jogava de zagueiro no social, ou melhor, de beack, conforme a nomenclatura original desse esporte. Chutava de bicuda. Era mais um touro bravio em campo do que um atleta. Nas partidas de solteiros e casados, ele e Messias soldado nunca faltavam.

Antônio Brito e Ulysses Bittencourt tinha preferência pelo cigarro fixo, cigarro de rico, como se falava, sendo que o primeiro sempre trazia consigo uma carteira de continental sem filtro. Alegando calor, repetia vários copos d’água durante o jogo. Todos sabiam, entretanto, que por traz daquela sede havia dois ou três rabos-de-galo tomados no final da tarde, no bar de Melé, próximo a sua residência. Ulysses fumava uma vez por outra, quase sempre na base do se me dão. Certa feita, os dois sustentaram uma tremenda polêmica a respeito de uma prestação de contas da prefeitura. Ulysses como rábula e Antônio Brito como contador. Ambos com vasta experiência na área administrativa. Um dizia que a matéria era de competência do Conselho Estadual, o outro afirmava que era do Tribunal de Contas. Nenhum dos dois abria mãos de suas prerrogativas até que Ulysses, vermelho como um peru, desabafou:

– Ninguém convence sua sabedoria besta, parece que tem um rei na barriga! Pior é você, respondeu Antônio Brito, estufando o peito, com sua bestagem de sabedoria, querendo ser mais entendido que todo mundo. Diante do trocadilho, o assunto foi encerrado como um trovão de risadas dos ouvintes que até então não ousavam tomar parte no bate-boca levantado, após uma empolgante partida. Sabedoria Besta e bestagem de sabedoria são expressões semelhantes ao conhecido proverbio: Tanto faz seis, como meia dúzia.

Teófilo, não me lembro se fumava. Exercia na época o cargo de Coletor Federal por aprovação em concurso. Era muito respeitado pelos demais integrantes do grupo. Como militante político, defendia as cores do MDB. Foi o principal articulador da eleição de Leobino, em 1966. Na condição de diretor do ginásio, assinou o meu diploma de professor, delegando-me a árdua incumbência de lecionar cinco matérias nesse estabelecimento. Recordo-me das suas aulas de Direito. Isso mesmo! Na década de sessenta, antes da Lei 5.692, ensinava-se Direito na Escola Normal de Paramirim. Pelos serviços prestados à educação no município, tem o seu nome perenizado no frontispício da Escola Municipal de Pau de Colher, sua primeira cadeira como Professor. Incentivou o esporte, por isso o antigo campo do ginásio era chamado de Estádio Teófilo Abreu Magalhães.

A diferença do cigarro do professor Zaiter com o de Dr. Aurélio era enorme, a começar pela maneira de fumar. Zaiter não fumava, mamava um grosso cigarro de fumo picado, esquecido no canto da boca, o máximo que podia. Era uma Maria fumaça em pessoa. Seus livros cheiravam a fumo, nunca se dava ao luxo de um Hollywood ou de um Mistura Fina. Fumava em qualquer lugar. Na pescaria, na sala de aula, nas repartições públicas e na mesa de jogo. Às vezes usava duas folhas de papel aymoré para embrulhar o punhado de fumo cortado a capricho. Sua preferência era o fumo suçuarana comprado por encomenda debaixo do tamarineiro de Dona Pequena, nos dias de sábado. Curioso, os tamarineiros da praça Santo Antônio, num total de quatro, naquela época, eram denominados em homenagem ao morador mais próximo. Dessa forma, tínhamos os tamarineiros de Seu Chiquinho, o de Seu Flávio e o de Zé Vieira. Zaiter era, por assim dizer, o porta-voz do grupo, dava-se com Raimundo e todo mundo. Pelo carinho e consideração que todos lhe dispensavam, ninguém ousava censurá-lo. Fui seu aluno, seu amigo e companheiro de pescada nas margens da lagoa de Paramirim. De sua boca recebi rasgados elogios. Incentivou os meus estudos. Certa feita, pediu-nos que fizéssemos uma redação sobre as tradições juninas. Além dos elogios e da nota merecida, fez-me acompanha-lo nas demais salas do ginásio para ler o texto considerado uma obra prima. A prof.ª Amélia é testemunha disso. Como tributo de sua propaganda tive que escrever por ordem do Prof. Teófilo, um discurso, que não me sai da memória, em comemoração ao Sete de Setembro e tornei-me orador oficial da turma no final do curso.

O cigarro de Dr. Aurélio era mais discreto, bem mais social que o de Zaiter. Fumava ocasionalmente. Não era propriamente um vício. Optava pelo cigarro de palha, segundo ele, menos prejudicial que o industrializado. Não me lembro se fumava em sala de aula. No consultório, sim. Na mesa de buraco, também. Todo fumante comemora o sucesso de uma realização com uma gostosa baforada. Quem sabe, após um exaustivo trabalho, Dr. Aurélio não fazia o mesmo. Na mesa de buraco todos se igualavam. O médico, o professor, o coletor federal, o dentista prático, o serventuário da justiça, o comerciante, o promotor, o alfaiate, todos ficavam no mesmo nível. Quebravam-se os protocolos e as etiquetas. Não havia formalidades. Diante de uma jogada malfeita ou uma rateada qualquer, como se diz nagíria, chovia os impropérios. As considerações menos respeitosas vinham sempre do lado de Zaiter. Seu doutor meia tigela! O senhor formou-se de proteção. Deveria estar roendo pequi até hoje. Um minuto pra fazer um exame, dez, para jogar uma carta. Quanto mais joga, mais erra. Suas advertências eram por demais conhecidas e às vezes motivo de graça, pelo tom jocoso aplicado às suas expressões. Com poucas palavras Dr. Aurélio retrucava. Vai lamber sabão Zaiter! Você deu graças a Deus por haver pegado um diplominha de professor nos gerais de Caetité. Você é careca de burrice! Na noite seguinte o jogo recomeçava como se nada tivesse acontecido.

Carlos Lage, o mais novo do grupo, carregava consigo o curioso apelido de Caenga, adquirido quem sabe na pia batismal da molecagem nos idos risonhos de sua infância. Sobrinho de José Bonifácio Lage Brasil, ostentava um vasto repertório de casos contados a seu respeito. Jogava futebol e dançava bolero como ninguém. Era parceiro de Teófilo no jogo de cartas. Ensaiou o ofício de alfaiate até virar funcionário da comissão do Vale do São Francisco por obra e graça do deputado Manoel Novais, muito amigo do seu tio. Depois de aposentado, dedicou-se à profissão de protético, criando e educado ao lado da professora Elza, sua esposa, uma numerosa prole. Dentre os casos que protagonizou, destacamos o diálogo entre ele e Salvador de Sá Isaura, primo carnal de Ulysses Brito, passado na feira livre de Paramirim.

Tudo começou com a encomenda da costura de uma calça por Salvador a Caenga. Naquele tempo o ofício de alfaiate era rendoso e a cidade se orgulhava de bons profissionais como Enésio Alves de Oliveira, Ulysses Bittencourt, Antônio de Zuza, Altamiro de Otto e mais tarde Antônio Marques da Silva, dono da Tesoura Canhota. Dava gosto ver a fileira de calças novinhas em folha emparelhadas no armário e as maquinas a pedal trabalhando sem parar. As lojas não vendiam confecções e por ocasião de festas aumentava-se o trabalho nas alfaiatarias. Sinto orgulho em dizer que a minha primeira farda do colégio foi confeccionada pelo mestre Antônio Marques e o meu terno de formatura também. Neste tempo Caenga ainda era um aprendiz e pouco preparado para receber uma encomenda. O destino quis, entretanto, que um corte de brim comprado por Salvador na loja de Seu Flávio fosse ter às suas mãos. Pano molhado para não encolher, medidas anotadas a rigor numa folha de caderno, uma máquina PFAF à sua disposição e os aviamentos necessários. O resto era mão de obra, acontecesse o que acontecesse. A extrema necessidade de ganhar alguns trocados para gastar na festa de Santo Antônio fez o aprendiz passar pela inesquecível experiência de costurar a primeira calça por encomendada, logo para quem, para Salvador de Sá Isaura, dono das pernas mais desengonçadas da cidade.

Salvador era uma figura excêntrica. Passava seis meses sem sair de casa e o resto do ano, andando ao léu. Vivia de pequenos negócios, criava canários por fanatismo. Chamava-me de Domingos Estrela, como muitos me chamam de Domingos da Guia, não pelo futebol-arte destes atletas, mas pela força de expressão da intimidade. Salvador se primava por raras qualidades. Era alheio ás chamadas convenções sociais. Um irreverente. Passava-se de vítima a herói ou vice-versa com extrema facilidade, como o fez no memorável episódio da costura. Achando que tudo havia saído certo, Caenga se dispõe a procura-lo no meio da feira livre, como havia combinado, sem saber que uma grande decepção o aguardava. Feira livre é lugar onde se corre dinheiro, portanto, um bom lugar para acertar compromissos. Tiro e queda, lá estava Salvador feliz e despreocupado da vida, estreando a dita calça de brim, obra prima de Caenga que se sentiu mais entusiasmado para cobrá-lo ao vê-lo usufruindo do seu trabalho, mas para não ser impertinente, ensaiou uma bela desculpa, bordada de arrodeio.

– E aí Salvador! Soube que você tem um casal de canários que não perde pra ninguém. Vou lhe indicar um comprador. Edmundo da Estatística tem preferência pôr um casal amarelo e lhe paga um bom preço com gaiola e tudo. Antes disso, eu quero receber o dinheiro da costura, conforme combinamos. Estou apertado e tenho que quitar alguns compromissos. Sem pestanejar, seu interlocutor apoia o pé numa bruaca de rapaduras, mostrando com desdém a situação da roupa que usava, exclamando veementemente: – mais apertado estou eu dentro deste saco que você me costurou.

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Ás dez e trinta, Zé Cardoso dava o primeiro sinal que o motor da luz ia ser deligado. Concluía-se a rodada. Encerrava-se o jogo, mas os comentários prosseguiam na rua. Vencedores e vencidos se confraternizavam, mesmo que fosse por meras formalidades. Os que moravam pelas bandas do Rosário, acompanhavam o médico até à porta da residência deste e ali permaneciam por mais algum tempo dando os últimos arremates sobre alguma questão. O velho não gostava de futebol. No último sinal da luz, todos se dispersavam.

Dos remanescentes desse grupo, restam poucas cabeças. Ulysses Bittencourt emplacou no último fevereiro oitenta e sete anos, Teófilo Abreu reside em salvador, Carlos Lage em Vitória da Conquista e Antônio Araújo goza do privilégio de continuar no seu mesmo cantinho da praça do Rosário, agora desprovida do auditório e pavimentada com um belo jardim. Dentre os que se foram, rogamos a paz celestial para Tobias Tanajura, falecido em 1978, Dr. Aurélio, em 1994, Antônio Brito, em 1999, e Zaiter, em 2006. Esperamos que esse quarteto, unido como sempre pelos laços de amizade, esteja num cantinho do céu, jogando todas as noites uma concorrida partida de buraco, como fizeram aqui na terra, na bucólica Paramirim, no tempo em que depois das onze, dava gosto ver uma bela lua cheia prateando as águas da lagoa onduladas pelo vento.

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