Na casa de seu Otaviano Teles terminava a Rua 16 de Setembro

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Na casa de Seu Otaviano Teles terminava a Rua 16 de Setembro

Caramba, dessa vez retrocederam de mais no tempo.  Não imaginava que um dia eu pudesse rever esta paisagem, mesmo que fosse no papel. Mais um motivo para não se duvidar de nada, nem achar que tudo está perdido.

Olha que a descoberta foi num piscar de olhos. Uma surpresa daquelas que nos deixa sem chão por alguns instantes e tudo volta à realidade contemporânea, quando a emoção desaparece.

Não me canso ao dizer que as redes sociais têm sido um importantíssimo parceiro na recuperação da história, desde que haja na ponta da linha um colaborador bem-intencionado que se disponha a postar alguma imagem ou texto, a título de curiosidade, que acaba caindo nas graças de um saudosista, germinando novas sementes pelo santo milagre da comunicação. 

Foi assim que aconteceu com a foto de um antigo trecho da rua 16 de Setembro postada recentemente no face de alguém de Paramirim (elogios para quem o fez), na qual aparece em primeiro plano a morada do Sr Otaviano Teles com todos os detalhes que a evidenciavam, despertando na memória dos que a conheceram, grandes recordações decorrentes de sua história.

Todos os detalhes presentes nesta foto, inclusive os pés de eucalipto existentes no quintal me remetem ao passado e de repente me vejo reunido com outros colegas do curso ginasial, de pirex em punho, degustando o saboroso doce de leite preparado e servido por Dona Natália, assessorada por Mirthes e Maria Emília, esta última, mais tarde, casada com Quincas de Procópio.

Para os que viveram a efervescência do Brás nos idos de cinquenta até setenta, sabem descrever a simplicidade   de uma doceteria sem nenhum equipamento elétrico, se quer uma geladeira a querosene, onde tudo se fazia de forma artesanal, mas com muito bom gosto e qualidade. O pequeno comercio de Dona Natália era o único ponto das imediações do Cine Alvorada, onde se vendia pingo de leite, vitamina de abacate, salada de frutas, suco de groselha e o tradicional bolo de forma, cortado em fatias. Ao término das projeções, os estudantes mais endinheirados faziam filas ao pé do balcão, porque não existia mesas para se sentar, e dentro de poucos minutos lá se iam as guloseimas preparadas, a maior parte delas na base do depois eu pago.

Seu Otaviano era fiscal da Prefeitura e dificilmente colocava os pés no comércio da esposa, obedecendo o salutar ritual de dormir junto com as galinhas, como se fala na linguagem sertaneja. Dona Natália era uma doçura de pessoa. Paciência tinha de sobra.  Mourejava o dia todo junto ao fogão para ajudar garantir a faculdade do filho Marinho Teles, dono de uma iluminada inteligência, estudante de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, onde foi diplomado com honra ao mérito.

Posso dizer, sem nenhuma hipérbole, que a casa do Sr. Otaviano Teles de Sousa, localizada na esquina da praça do Rosário com a rua 16 de setembro era como se fosse uma formação rochosa ao sopé de uma montanha garantindo-lhe sustentação, referência e visibilidade, tamanha era a impressão que a mesma causava ao seu observador. A propriedade inteira correspondia a todo o quarteirão que hoje vai da esquina do supermercado de Joaquim Dourado até fazer parede-de-meia com a antiga casa de Chico de Dulce. Uma extensa vivenda para poucos moradores, comparando o conteúdo com o continente. Digo mais, uma verdadeira pilastra no conjunto arquitetônico do Brás.

Após o falecimento do esposo, a paciente e dedicada viúva, herdeira universal do casarão, mudou-se com as filhas para São Paulo indo se juntar a Marinho que ali vivia há anos, sempre morando na Vila Medeiros com Dona Bela, mais conhecida por Bela de Joaquim Teles, irmã   de criação do Sr Otaviano. Aí dou uma parada no tempo para dizer que compartilho estas recordações com os olhos pregados nos desbotados detalhes da foto, dela colhendo as doces lembranças da minha adolescência, quando o entorno da Praça do Rosário era tão singelo e desprovido de benefícios que mais parecia um fantasma a espreitar a sua capela, totalmente diferente da feição que hoje tem.

O contexto desse casarão, que de mansão nada possuía, constitui um expressivo capítulo ou melhor vários capítulos da história de Paramirim por se tratar de uma construção que perdurou no tempo com raízes plantadas no decorrer dos anos quarenta ou quem sabe bem antes disso, servindo suas dependências não somente de residência como também de acolhimento para diversas repartições instaladas na cidade a partir da década de cinquenta.

A primeira delas foi a badalada Cooperativa Mista dos Agricultores de Paramirim, instalada pela Residência Agrícola da Comissão do Vale do São Francisco que aqui chegou em 1958 sob a chefia do Agrônomo Dr. Gabriel dos Santos Pereira Ribeiro. Imaginem o fuzuê que fizeram antes da instalação.  Imaginem também a decepção decorrente do seu fracasso.

Foi nessa época e por conta disso que a casa do Sr Otaviano recebeu os seus primeiros melhoramentos. Até então ostentava o engraçado apelido de casa da esquina sem reboco porque na sua concepção original possuía um aspecto não muito elogiável.

Era uma construção inacabada, que se contrastava com as demais existente no contexto da praça. Foi contemporânea da casa de Zé Catolé, da qual se diferenciava pelo fato desta ser um ponto residencial e comercial ao mesmo tempo.

Desta forma a partir da década de sessenta, a casa dos país de Marinho foi-se dividindo para dar origem a vários pontos de aluguel até se transformar no conjunto de prédios que hoje ajuda compor o canário arquitetônico da Avenida Dr. Aurélio Justiniano Rocha, fruto do desenvolvimento urbano de Paramirim e da melhoria das condições econômicas de sus moradores.

Não se pode negar que houve um sensível avanço. Comparar as imagens do passado com as do presente é querer comparar a infância com a velhice. Na natureza todo se transforma, na paisagem urbana, principalmente. O interessante é entender as razões dessa transformação.

Podemos dizer com convicção que a foto é da década de cinquenta baseado nos elementos que nela se fazem presentes. A existência de dois postes de madeira na esquina da praça é o referencial básico. O poste maior era do telégrafo, instalado em 1948 e o menor era da rede elétrica, implantada em 1952. Para fechar a tese, esclarecemos que em 1969 (no governo do Sr. Leobino José Rodrigues) todo conjunto de madeira foi trocado por postes de cimento, razões pelas quais se confirmam nossas considerações, tratando-se, pois, de uma fotografia de aproximadamente 60 anos.

Para quem não conheceu esta realidade, ressalto que seguindo a linha do casario em direção a serra estampada na foto, destaca-se o salão do Cine Aliança com telhado um pouco mais elevado, que os demais também construído no início da década de cinquenta pelo dinâmico comerciante Geraldo Barbosa.

Espero que este enfadonho relato sirva de página para as futuras gerações nela se espelharem para compreender e amar um pouco mais as coisas do passado de nossa terra, lembrando que os self de hoje bem como os registros históricos se preservados forem poderão produzir daqui a alguns anos a mesma sensação que senti ao ver circulando nas redes a foto que me remeteu aos idos da minha juventude.

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