Marinho Teles de Souza, um paramirinhense de valor

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Marinho Teles de Souza
Marinho Teles de Souza

Iniciava-se o ano de 1963. Não me lembro o dia, creio que em janeiro. Após uma semana de sofrimento viajando de pau de arara e pela Central do Brasil, naquele tempo não havia Novo Horizonte, chegamos a São Paulo, ou melhor, aportamos. Era um dia de tremendo aguaceiro. Eu e mais dois colegas havíamos concluído o curso ginasial em Paramirim e sonhávamos prosseguir os estudos na capital paulista.

Devido o alagamento da cidade, tivemos que fazer o percurso a pé, do Brás até a Liberdade, onde residia Dona de Ramalho, tia dos meus colegas. A bagagem seguiu de carroça. À noite, por uma outra conterrânea, por nome Zinha, fui levado até a casa de Marinho Teles, na vila Medeiros, se não me engano. No dia seguinte, cheguei ao meu destino final, no Alto da Vila Maria, mais precisamente na rua Porangatu, em frente ao Clube Recreativo Duque de Caxias, onde moravam os meus familiares.

Na casa de Bela de Joaquim Teles, tia de criação de Marinho, passei a minha primeira noite em São Paulo e ali recebi calorosa acolhida e uma chuva de perguntas do meu conterrâneo sobre o nosso distante Paramirim, onde passamos a infância e parte de nossa juventude, ele na praça do Rosário, eu na Beira da Lagoa, hoje bairro São José.

Nossa amizade e convivência nasceram nas intermináveis peladas praticadas na rua e nos campos improvisados da periferia de Paramirim, pontos de convergência da meninada daquela época. A rua do Rosário se primava por excelentes jogadores como Luiz de Enedino, Didi de Antônio Miranda, Antônio de Chiquinha, Luiz de Paulino, Marinho e Deusdeth, este último sempre jogando de goleiro. Rivalidade era o que não faltava entre o bairro São José e a Praça do Rosário. Volta e meia uma briga no campo esquentava os rivais, mas tudo isso fazia parte do nosso dia-a-dia.

Em 1958, inaugura-se o Ginásio de Paramirim, mantido pela Fundação 16 de Setembro, um acontecimento digno de ser contado e louvado em prosa e versos, por ter criado oportunidades para os jovens da época, principalmente àqueles que não podiam estudar em outras cidades. Marinho integrou a turma dos pioneiros, composta de vários filhos da terra. Fui seu contemporâneo, a partir de 1959, na segunda turma ginasial.

Naquele tempo, Paramirim era uma cidade pacata com poucas ruas, sem calçamento, luz a motor, apagando-se às 23:00 horas. O único ponto de diversão noturna era o Cine Aliança e mais tarde o Clube Social, ambos no início da rua 16 de Setembro, próximos à Praça do Rosário. Apesar da simplicidade, guardo excelentes e imorredouras recordações desta época, a exemplo das passeatas do Sete de Setembro, os filmes de Roy Rogers e Tarzan, as festas de formaturas, os inesquecíveis encontros futebolísticos, sem se falar nos folguedos natalinos do nosso interior embalado na sadia convivência de seus habitantes. Dava gosto ver a cidade se engalanar nos dias festivos para comemorar a chegada da primavera, o dia do seu padroeiro, a semana da pátria, as entradas de festas, o natal com lindos presépios, as novenas e tantos outros eventos, hoje relegados a segundo plano, até esquecidos e desvalorizados.

Meus pais eram compadres dos pais de Marinho. Dona Natália e seu Otaviano batizaram uma das minhas irmãs. Os laços de amizade, respeito e consideração, presentes na nossa convivência, vêm de nossos antepassados. Recordo-me das vistosas romãs colhidas no quintal de seus avós, doadas como brindes aos leilões de São José, quando mamãe era festeira; lembro-me também dos pingos de leite saboreados na lanchonete de D. Natália, ponto de encontro de uma vasta clientela formada, principalmente, de estudantes, na década de sessenta. Recordo-me ainda do seu Otaviano Teles, Fiscal da Prefeitura de Paramirim, com sua pequena escrivaninha no Mercado Municipal nos dias de feira-livre, extraindo impostos e taxas, arrecadando valores para a Receita Municipal, pesando mercadorias, disciplinando a conduta dos vendedores ambulantes vindos de várias regiões, se orgulhando de ter um filho inteligente, estudioso a caminho da faculdade, no universo de pessoas estranhas, onde muitos concorrem e poucos alcançam os seus objetivos.

Inserido no contexto paulistano, Marinho foi vencedor. Soube aproveitar com dignidade os esforços de seus pais e apoio de sua benfeitora. Bela foi para ele um braço forte, o ponto de referência, a âncora de sua sustentabilidade em São Paulo, nos primeiros anos de sua carreira estudantil. Passou dificuldades, claro, passou, inclusive por questões ideológicas. Mas auto-determinado como sempre fora, ganhou a confiabilidade de todos e ali no meio da adversidade fez germinar os seus sonhos, concretizando seus ideais.

Cursou a faculdade, fez Direito. Conquistou um lugar ao sol. Igualou-se a muitos outros paramirinhenses que no passado e no presente deixaram o Sertão em busca da cultura, não decepcionando os seus familiares, nem muito menos, os seus conterrâneos.

O pacífico Marinho da Rua do Rosário, assíduo leitor das obras literárias do Grêmio Euclides da Cunha, se transformou num dinâmico estudante de umas das melhores faculdades paulistana, elevando o nome de sua terra natal. Após a perda do saudoso Otaviano Teles, sua família transferiu residência definitiva para São Paulo, como tanta outras fizeram, em busca da sobrevivência.

Num dos poucos retornos à Bahia, Marinho conhece Elza, uma vistosa sertaneja procedente dos rincões de Canabravinha, berço de vários próceres. Unidos pelos laços de um sólido matrimônio, procriam três filhos, ampliando seus laços familiares. Dotado de vários outros predicados que enobrecem o ser humano, Dr. Marinho Teles figura-se por merecer na plêiade dos filhos ilustres de Paramirim. Sua trajetória de vida é digna de ser tomada como exemplo pelas gerações que o sucederam.

Nesta pesarosa manhã de 14 de setembro, nosso ilustre conterrâneo nasceu definitivamente para a vida eterna. Calou a sua voz, mas a sua memória permanecerá para sempre entre os que o conheceram e com ele conviveram. Resta-nos apenas dizer você Marinho, foi um paramirinhense de valor.
Assim sendo, externo a Dona Elza, a seus filhos, familiares e amigos, o nosso voto de pesar pelo seu falecimento. Que Deus dê o devido conforto a todos que sofrem pela sua partida e a certeza de que a morte é o caminho de todos nós.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Meu eis colega da turma pioneira do ginásio de Paramirim. Ele era admirado por todos pela sua humildade, amizade, companheirismo e inteligência. Muito bom em matemática. Quando na terceira serie (termos da época ) a maioria da turma ficou na segunda época, ele deu aula pra muitos colegas,inclusive eu. Vai nos deixar muitas saudades e boas lembranças. Que o Senhor,o dono da vida, console e conforte todos familiares. Obrigada Belarmino por vc postar está notícia apesar de triste mas pude ter acesso.

  2. Prof. Domingos:
    Parabéns pela retrospectiva e nos brindar com seu belo comentário sobre à sua época estudantil, juntamente com o Marinho Teles, um Paramirinhense de valor e de muito orgulho para seus conterrâneos.

  3. Prof. Domingos Berlamino

    Agradeço em nome da minha família essa ilustre homenagem feita ao meu Pai, digno dessas palavras e de toda minha admiração! Meu Pai é e será eternamente para mim um exemplo de integridade, honestidade e superação! Minhas últimas horas foram de dor e saudade, mas acima de tudo de muita gratidão!!! Gratidão pela educação que me foi dada, pelo valores adquiridos e por me disponibilizar tudo que eu precisasse para construir uma vida!! Feliz serei em poder transmitir aos meus filhos e sobrinhos toda essa história de vida e muito orgulhosa de fazer parte dela!

    Muito Obrigada

    Marília Brasil Teles de Souza

  4. Primeiramente gostaria de agradecer um dos meus maiores Mestres (Prof. Domingos) pelas ricas palavras e pelos inúmeros elogios tecidos ao meu saudoso tio Marinho Teles, ao qual sempre chamei carinhosamente por “Mário”.
    Segundo, confesso-lhe, que nem mesmo eu, ente familiar tinha tanto conhecimento com riquezas de detalhe da vida de meu tio. Talvez em virtude de não ser contemporâneo.
    Como já registrado por mim noutras redes sociais, faltam-me palavras para definir aquele grande homem que nos deixou. Honrado sertanejo, exímio causídico, dedicado arrimo de família. Mário, foi uma ilustre pessoa que sempre tive orgulho de te-lo em minha familia e sempre foi uma notável referência pra como advogado. Oriundo do maior e melhor berço do Direito no Brasil, meu tio estudou na faculdade do largo do São Francisco, tendo como alguns de seus Mestres os insignes Silvio Rodrigues e Dalmo Dalari.
    Desta forma, creio que não precisos muitas palavras pra definir o saudoso Marinho Teles, falecido em São Paulo em 14/09/2015

  5. (continuação) Movido por grande emoção não pude continuar e finalizar o cometario, Domingos, estou com dificuldade na visão e não vi quem comentou,porem imaginei que fosse voce. nao fique aborrecido com minha pequena colaboração na informação, pois a beleza das suas palavras superam qualquer equivoco em relação aos fatos,
    Neste momento ainda movido por uma grande emoção, já que Marinho será sempre o meu Irmão e cunhado,vivi e dentro do seu nucleo familiar por longos anos e o mesmo deixou-me um vazio muito grande pois não posso mais desfrutar da sua sabedoria tão grande em todos os niveis de conhecimentos , e de praticas morais,sei que Ele está muito mais vivo do que antes pois agora está livre do peso do seu corpo e poderá ir onde sempre teve vontade e não foi
    Para nós Espiritas a vida continua e com certeza não sei quando estarei de novo com Ele para continuarmos a jornada,
    A vida continua, o Espirito -e imortal
    O maior aprendizado que tenho Dele, é que não podemos mudar o passado, mas podemos promover um fim diferente
    Muita paz a todos Edeseo Marins Brasil

  6. Bom dia Irmão(A) muito lindo a sua homenagem, e que Deus te ilumine,
    Apenas a titulo de esclerecimento, sem querer tirar a beleza das suas palavras, Marinho quando foi para Sao Paulo, seu Otaviano estava vivo
    pois mudou-se depois com as filhas Enia e Mirtes e Dona Natalia para a vila gustavo.
    Que Deus ilumine voce por esta linda homenagem ao nosso Irmão
    Muita Paz

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