Gramática, água sanitária e eleições

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Quando estamos a fim de melhor conhecer o significado de determinada palavra da língua portuguesa ou qualquer uma outra a ela incorporada, recorremos a diferentes campos da gramática e acabamos nos aportando no pouco conhecido mundo da etimologia. Parece meio sem sal o que vamos abordar, mas é um excelente recurso para se obter de forma mais abrangente o que de fato se acha por trás dos vocábulos usados na nossa comunicação diária.

Nesse particular ninguém melhor do que o velho professor Zaiter, que foi o mestre de todos nós no Colégio de Paramirim, poderia nos ajudar, se vivo estivesse. Mas, como não o temos mais, vamos direto ao que desejamos publicar sobre o assunto.

Sem querer, querendo, e por ser uma das mais oportunas para o momento, optamos, dentre outras pela palavra CANDIDATO, para exemplificar as nossas explanações. Como se percebe, a palavra candidato, neste segundo semestre de 2016, como sempre acontece em anos eleitorais, estará na boca de milhões de brasileiros por todos os rincões do país, mas o que ela realmente significa e por que ela é escolhida para denominar a pessoa que pleiteia um cargo eletivo é o que vamos discutir.

É uma palavra que, desgastada pelo uso, traz em si uma verdade que vale a pena recuperar. Vem do latim Candidatus, isto é, vestido de branco (Candidus), vem de Candida ( = sem mancha ), por que os candidatos tinham que apresentar uma vida imaculada. Na antiguidade, aquele disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar a sua pureza. É lógico, portanto, que exijamos de um candidato ou candidata que a sua vida, e não apenas as suas roupas, estejam limpas. Quando o candidato não era tão puro assim como se apresentava, o povo atirava lama em suas vestes brancas.

Se a moda perdurasse no tempo e no espaço, seria muito engraçado, por que não dizer ridículo, ver muita gente da gravata ou do short, substituindo estas indumentárias por longas túnicas brancas, à moda romana, para mostrar ao povo a pureza de seus princípios e a candura de suas almas. Seriam eles, nada mais, nada menos do que a representação de verdadeiras caricaturas do inconcebível e do inacreditável, da incoerência e da inaceitabilidade, andando pelas ruas, despertando risos e chacotas, entrando em repartições públicas, circulando nos bares da cidade, frequentando festas e festinhas com ar de inocência até no farfalhar das vestes. Como é bom sentir as mudanças dos costumes e a evolução dos significados das palavras também.

Hoje, podemos atribuir a palavra candidato a toda pessoa que aspira a um cargo público, emprego, honrarias etc. O uso obrigatório da túnica branca foi abolido, mas a chamada Lei da Ficha Limpa, criada em 2010, através de uma emenda constitucional de iniciativa popular constitui o grande referencial para se combater a corrupção, e todo aquele que está na lista das fichas sujas ou por estarem enquadrados nas investigações da Policia Federal, são impedidos de candidatar a qualquer cargo político.

Então, quando batizamos um filho ou uma filha aderindo ao seu nome de batismo o adjetivo cândido ou cândida, como em José Cândido, Luís Cândido, Ana Cândida ou Maria Cândida, o fazemos apenas por achar que a pronuncia do privilegiado vocábulo nos soa bem aos ouvidos e que a sua composição faz a pessoa se sentir mais importante por fazer lembrar alguém da família presente num remoto ou recente antepassado. Esquecemos ou nunca procuramos saber o que de fato esta palavra representa em sua origem e na sua evolução. Aí então o danado do Cândido ou da Candinha que na essência originária do vocábulo significa pureza, vemo-los se comportarem de forma maculada como se fosse um mar de lama em pessoa. Foi por isso, que o mundo publicitário achou de criar uma água sanitária com a marca Candida como sinônimo daquilo que limpa, alveja e deixa a roupa totalmente isenta de manchas.

É lamentável saber que nos dias atuais a palavra candidato já não tem mais o significado original.  Ninguém hoje quer e pode se mostrar como tal, ou como era antigamente exigido. Ninguém hoje é tão limpo a ponto de fazer jus a uma túnica totalmente branca e se sagrar como candidato dentro das concepções originárias. Em contrapartida, o eleitor também não tem a preocupação de examinar se o seu candidato tem ou não tem essa pureza.

Ninguém quer saber do histórico de ninguém, de seus atos perante a sociedade, de suas atitudes, de sua ideologia, da sua formação intelectual, da coerência do seu comportamento, do seu programa de governo nem da sua plataforma política. Os tempos mudaram, as concepções também. O que simboliza o candidato e o faz diferente na opinião pública já não é mais a túnica nem o seu currículo é o seu metabolismo com o povo, a sua empatia, o seu carisma, a sua afinidade com as nuances do momento.  É falar a mesma linguagem do povão.  

Pelo crivo do Código Eleitoral, as condições de elegibilidade de um cidadão são generalizadas nos seguintes princípios: Nacionalidade brasileira, alistamento eleitoral, pleno exercício dos direitos políticos, domicilio eleitoral na circunscrição, filiação partidária, idade mínima conforme a candidatura. São estes os requisitos essenciais que por lei o pleiteante a um cargo público eletivo deve ter para o registro de sua candidatura. Daí para frente são os casuísmos e os conchavos que se fazem nos bastidores da política.

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