Estamos globalizado, sim

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Estamos globalizado, sim

Mesmo vivendo numa pequena cidade do interior, nas barrancas do Rio Paramirim, a quatrocentos e sete quilômetros da capital baiana em linha reta, podemos sim nos considerar como parte integrante de um mundo globalizado, por força das diversas circunstancias que nos envolvem. Não há como descartar a hipótese de que vivemos numa Aldeia Global.

Não há controvérsias, nem tão pouco churumelas para se dizer o contrário. Imagine você sentado no trono de um apartamento com um headset ou atrás de uma moita, lá nos Cafundós do Judas, dando-se ao luxo de ouvir uma música internacional tocada por uma FM qualquer, ao mesmo instante em que milhões de pessoas no mundo inteiro estão fazendo a mesma coisa. É ou não é globalização?

Claro que sim. Não somos a ponta de um iceberg no meio de um oceano glacial, somos parte integrante de um todo formado de centro e periferia no qual recebemos e transmitimos radiações para nós mesmos e para os que estão ao nosso redor, numa troca recíproca, constante e vertiginosa, levando-se em consideração ao que antes éramos vivendo no mesmo espaço geográfico.

Nossa globalização não é coisa nova. Ela apenas se ampliou no mundo moderno pela poderosa força dos atuais meios de comunicação, a exemplo da internet. Tudo começou no final do século XVIII, quando ao Vale do Paramirim chegaram os primeiros colonizadores lusitanos para exploração do ouro, que inclusive foi exportado para Portugal, sem se falar no cultivo das terras para fins agropecuários, estabelecendo-se assim o lastro do comercio regional do interior baiano, arquitetado por colonizadores brasileiros e estrangeiros.

Ao término do século da Independência do Brasil, o engenheiro francês Louis François Octave Boisseau adquiriu centenas de hectares de terras auríferas na região de Paramirim das Crioulas, ali introduzindo um moderno processo de mineração do ouro, como bem atestam os rastros deixados pelo seu trabalho ainda hoje presentes nas minas do Morro do Fogo e no famoso garimpo da Beta, na serra das Almas.

É de se lembrar que entre 1913 e 1915 dirigiu a Paróquia de Paramirim o Pe. português Joaquim Maria Vieira que apesar do curto espaço de tempo que aqui ficou, nos deixou um legado duradouro, assentou o cruzeiro da Serra do Recreio, organizou o Apostolado da Oração e reconstruiu a Igreja Matriz de Santo Antônio, dando-lhe o formato que hoje possui.

Não podemos obscurecer que a internacionalização dos domínios territoriais de Paramirim, iniciados com a compra da Fazenda do Arraial pelo Capitão português Antônio Ribeiro de Magalhães, em 09 de fevereiro de 1797, vem se pulverizando ao longo dos anos de forma lenta e progressiva com resultados positivos para vários setores regionais, como um fenômeno irreversível.

Nos anos sessenta chegou a vez dos Yankees adentrarem as nossas fronteiras, alguns deles com objetivos não identificados, outros como missionários Presbiterianos, como foi o caso do Reverendo David e sua esposa Anne Lodge, os quais muito contribuíram no âmbito educacional, ele como pastor e ela como regente do coral criado para cantar nos eventos religiosos. Quanto aos demais americanos que aqui estiveram nesta década, um deles levou como esposa a professora Finoca, que ao nosso ver foi a primeira paramirinhense a mudar para os States of América, onde constituiu família e por lá reside até os dias atuais sem esquecer a sua terra natal.

Nos anos setenta, o Cemitério Dr. Edgard Medrado recebe o primeiro estrangeiro nele sepultado na pessoa do espanhol Jean Rodriguez Giminez, falecido de acidente automobilístico em 19 de abril de 1970, entre Brumado e Livramento, quando viajava a passeio para Paramirim.

Em meados dos anos oitenta, o Pe. Aldo Lucchetta, de nacionalidade italiana, marca presença na região, nos deixando como principal benefício a criação da Escola Família Agrícola de Paramirim, onde centenas de jovens recebem a formação educacional associada à pratica da agricultura com resultados positivos para a sociedade.

A partir dos anos noventa o processo de globalização se acelera com as novas técnicas de comunicação, aperfeiçoam-se a transmissão e a retransmissão das imagens de TV no Vale do Paramirim, chegam-se à cidade os primeiros computadores, Paramirim entra na Era da Informática.

Com a chegada do século XXI, após alguns anos de espera, inaugura-se em 23 de abril de 2007 o sinal da Vivo em Paramirim para operacionalização da telefonia móvel. Logo após, chega a internet arrastando consigo outros benefícios da comunicação tornando nosso interior um vasto mundo sem fronteiras. Por conta disso, os pacatos catingueiros do nosso sertão viraram internautas de primeira grandeza no mundo virtual.

Não bastasse tudo isso, vale a pena lembrar que falamos o Português, derivado do Latim que por sua vez era falado no Lácio, pequena região da Itália, praticamos a capoeira, de origem africana, e o nosso esporte de maior popularidade é o foot-ball, originário na Inglaterra. Somos predominantemente católicos e várias igrejas evangélicas de diferentes procedências se acham instaladas no município, demostrando que fazemos parte de um eclético mundo globalizado com muitas faces culturais.

Temos ainda vários filhos de Paramirim estudando em diversos países, jovens de todas as classes sociais casados e morando no exterior, bem como pessoas de nacionalidades distintas residindo em nossa cidade, prova de que a “ terra do Rio Pequeno ” está conectada a várias partes do mundo.

Sem nenhuma restrição, incorporamos diversos estrangeirismos ao nosso vocabulário e por todo lado ouvimos ou falamos ok, yes, Red Bull, site, Ronald ao invés de Ronaldo e xerox ao invés de xerox. Compramos produtos do exterior através da internet e o repertório musical brasileiro está encharcado de canções internacionais.

Em se tratando de curiosidades, somos grandes campeões de importação de vários legados de outros países. Temos uma comunidade rural com o nome de Noruega, os bairros Espanha e Iraque, as ruas Madre Tereza e Madre Michel e recentemente foi inaugurada uma igreja em louvor a Santa Paula Franssinetti.

Para finalizar, basta lembrar que no Hospital Aurélio Rocha já se lavrou um atestado de óbito de um chinês, o povoado de Caraíbas tem uma médica cubana e na diocese de Livramento, da qual fazemos parte como paroquianos, temos a figura carismática do Bispo Dom. Armando Bucciol, de origem italiana.

O que nos cabe agora como integrantes desse eclético mundo globalizado é quebrarmos alguns preconceitos que nos restam, inserindo-nos definitivamente na sua dinâmica, sem perder de vista os valores éticos e morais herdados de nossos antepassados, pois estes são eternos, já nasceram globalizados num espaço sem fronteiras.

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