Escolinha da garagem ensinando o socialismo em Paramirim

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Escolinha da garagem, ensinando o socialismo em Paramirim

No início da década de sessenta, mais ou menos na época da renúncia de Jânio, ocorrida em 25 de agosto de 1961, Dr. Aurélio, atendendo à solicitação de vários alunos do Ginásio de Paramirim, em parceria com outros companheiros, abriu a Escolinha da Garagem, onde hoje ergue-se um vistoso prédio na Praça Érico Cardoso.

Lembro-me que era uma pequena sala com espaço apenas para quinze ou vinte pessoas, congestionada por diferentes objetos, tambores, pneus, sobras de material de construção, uma rustica mesa e algumas cadeiras surradas pelo uso. Nesse ambiente funcionou por algum tempo a única escola de formação política que já vi em toda a minha vida. Não possuía quadro de giz, carteiras, material didático nem as formalidades presentes em uma instituição de ensino. Os alunos sentavam-se como podiam nos montes de madeira para ouvir por uma ou duas horas, poucas vezes por semana, toda sorte de informações que um cidadão de mediana cultura precisa ouvir para construir o seu universo político, formar sua consciência crítica, arquitetar as suas convicções.

Não sei por quanto tempo durou a sua catequese. Sei apenas que no final de 1962, conclui o curso ginasial e para dar asas a um sonho que não se concretizou, parti para São Paulo, onde passei uma certa temporada frequentando o curso científico no Colégio Estadual Senador Paulo Egídio de Oliveira Carvalho, no bairro da Vila Maria. Quando retornei a Paramirim, a dita não mais existia e os colegas de outrora já haviam debandados, cada um à procura do seu destino.

Nela o saudoso Dr. Aurélio nos ensinou que no Capitalismo, a economia visa em primeiro lugar o lucro individual. No Socialismo, primeiro, os interesses coletivos. A organização social procura atender às necessidades básicas da população: educação, saúde, emprego, moradia, dentro da ótica filosófica e política adotada. O Estado controla em favor do povo a economia bem como os meios de formação e difusão ideológicas. A produção busca atender os anseios da população e não o lucro das empresas, como no capitalismo. No mundo socialista não há a exploração do homem pelo próprio homem.

A escolinha da praça da Bandeira, hoje praça Érico Cardoso, produziu uma safra de estudantes bem informados na política, sem roubar o tempo de ninguém. Funcionava uma ou duas vezes por semana. Dr. Aurélio e o Prof. Zaiter sabiam dizer com palavras apropriadas a essência do marxismo, mostrando suas vantagens e desvantagens para a sociedade. Mostrava como exemplo o que se passava nos países do Leste Europeu, que na época formava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas o ( URSS ), como uma das potências mundiais a contrapor com os Estados Unidos da América (USA). Citava Lênin, Khrushchev, Che Guevara, Fidel, Hengel. Falava de Mao Tse Tung, de Churchill, Benito Mussolini, Hitler, do Cavaleiro da Esperança, (Luís Carlos Prestes ), de Roosevelt, de Getúlio, de Eva Peron, de Brizola, de Jango, de Juscelino e Carlos Lacerda. Citava o New York Time e o Pravda. Descrevia com precisão a causa da renúncia de Jânio, a queda de Getúlio, a deposição de Fulgêncio Batista na descida de Che e Fidel da Serra Maestra. Recomendava a audiência do Programa O Trabalhador se Diverte, levado ao ar todos os domingos à tarde pela Rádio Mayrink Veiga, cada assunto por sua vez e no seu devido tempo.

Nesse ambiente, os Catequistas nos mostravam porque o Parlamentarismo foi introduzido no Brasil, depois da renúncia de Jânio e quais foram os ocupantes deste cargo no curto espaço de tempo em que vigorou, dentre eles o livramentense Hermes Lima. Graças às orientações ali recebidas votei pelo retorno do Presidencialismo no plebiscito de 06 de janeiro de 1963, pela posse do Vice-Presidente João Goulart.

Ao relatar esses fatos, vejo-me ainda jovem, sentado com outros colegas na improvisada escolinha da garagem, viajando pelo desconhecido mundo da história, sem saber que mais tarde viria eu lançar no papel essas lembranças, ainda retidas na minha mente, depois de longos janeiros. Rendo, pois, o meu reconhecimento aos autores e protagonistas dessa inédita iniciativa, graças à qual naveguei por lugares inusitados, conhecendo um pouco dos heróis e vilões que fizeram a história universal.

Não me considero, hoje, em hipótese alguma, formado em política, como bem poucos cidadãos o são. Ressalto apenas que aprendi o que muitos não aprenderam. Ali ouvi o essencial para formar o conceito do que a política representa na vida do Estado e do cidadão. Ali nasceu em mim o germe da polêmica e da rebeldia contra os cupins que sobrevivem do poder. Ali nasceu a minha ideologia, irrigada ao longo dos anos pela leitura de bons livros, me preparando para o exercício da cidadania ali aprendi que o ser humano não nasceu para ser boi de carga de quem quer que seja. Ali aprendi que “ certos políticos são iguais fraldas, os quais têm de ser trocados periodicamente pelos mesmos motivos ”.

Na escolinha da garagem ouvi do mestre Zaiter Laudelino de Souza, do carismático militante Antônio Bittencourt Araújo e de Dr. Victor Goulart Paes o que hoje falta dentro das escolas pública e particulares as noções básicas da organização social e política, uteis e necessárias a todo cidadão que quer contribuir com a história de seu país. Ali ouvi Dr. Aurélio dizer: “ Uma das razões de minha vida é o Marxismo. ”

Dessa forma, confesso que me senti estremecido quando a televisão anunciou a morte de Fidel Castro, ocorrida a 25 do mês passado. Estremecido por reconhecer o quanto ele foi, na mesma linha de Che e mais tarde de Lamarca um dos baluartes contra o imperialismo na América. Fiquei estremecido por sentir a morte de um homem que mudou a fisionomia de seu país, mostrando ao mundo o quanto vale lutar por um ideal.

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