Em tempo de eleições, como agem os bajuladores?

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Em tempo de eleições, como agem os bajuladores

Muitos exclamam não quero nem ouvir falar de política, outros retrucam política é coisa do diabo, até com razões pela sujeira que tem. Fico na minha e me coloco ao longo desses rabiscos como um mero observador principalmente dos fatos que vejo e ouço contar ao longo do processo prostitucional que antecede à votação chamado de campanha eleitoral.

Literalmente, trata-se de um período instituído e disciplinado por lei para oportunizar aos candidatos apresentarem ao povo sua plataforma de governo, seus projetos e ideias sobre o que pretendem fazer se eleitos forem. É a lua-de-mel do político com o seu eleitorado…

Se assim e somente assim acontecesse seria a mais perfeita das luas de mel coletivas nos lençóis da democracia, marcadas por eternas juras de amor e de fidelidade ao exercício político em prol do bem comum. Mas, infelizmente a prostituição começa logo no início do ano eleitoral, muitas vezes, antes, e se prolonga por todo o decorrer da campanha com um múltiplo e variado relacionamento que confunde até mesmo a própria justiça eleitoral pela intensidade e complexidade dos fatos.

Não me canso de dizer que o período que antecede os pleitos é o período das vacas gordas e das magras também. É um prometer e dar que não acaba mais. Uma busca sem fim do que não se guardou. Uma ocasião em que se vai a onde nunca se foi e se entra onde não é chamado. A corrida do aperto de mão, do tapinha no ombro, do beijo na testa e dos abraços. O tempo de se discutir, traçar estratégias, sair cedo de casa e voltar de madrugada. É o tempo de se vender e de comprar, de amar e de odiar, de pintar e bordar com a vida dos outros, de fazer promessas para cumprir e não cumprir. É um conta-se comigo que não acaba mais.

Em época de campanha é o tempo de praticar o famoso jeitinho brasileiro da forma mais abominável possível. Quebra-se o galho de quem precisa e de quem não precisa, realiza-se favores, perdoam-se dívidas, desfazem-se de preconceitos e inimizades de longos janeiros. Rasgam-se processos, engavetados no tempo sem nenhum constrangimento, como se tudo fosse o tempo do julgamento final.

Tempo de eleição é tempo de pôr as unhas de fora, estampar o sorriso no rosto, adocicar as palavras ou por veneno nas frases. É tempo das contradições. Do fazer, desfazer e refazer. É um verdadeiro construir desconstruindo. É tempo de lembrar e de relembrar fatos, mal ações e favores. É tempo de se soltar, de tirar dos arquivos as velhas provas guardadas a título de desforra. É tempo de revanchismo.

Em épocas de campanha as pessoas adoecem mais. Os exames e consultas se multiplicam assustadoramente. Nesta época, trata-se dos dentes. Conserta-se a casa, realiza a viagem desejada, paga-se a promessa em santuários distantes e coleta-se com mais frequência o lixo da rua.

Nesse período, mais do que nunca, a conjugação dos verbos precisar, necessitar e querer se intensifica na pessoa do pronome eu. Eu preciso de quatro pneus, eu quero o emprego de fulano, eu necessito de algo para mim. O coletivo cede espaço para ao individualismo. Ai daquele que ousar dizer não diante dos múltiplos e intermináveis pedidos. Dessa relação pretensiosa de dar para ganhar, do dando que se recebe, nasce a promiscuidade eleitoral e a banalização do voto. No tempo em que a sandália japonesa era a vedete dos calçados, conheci uma senhora que fez questão de exibir 40 pares da “cheirosa” todos eles arrancados de beneméritos candidatos numa só eleição. Quem vende o voto, vende o corpo vende o caráter, a dignidade e talvez até a alma. Daí surge a prostituição da democracia.

O que mais me intriga nesse contexto é saber que mesmo as pessoas economicamente independentes e até de nível superior são as que se entregam com mais volúpia a essa ignomínia e a fazem com tal sutileza achando que a pobreza não sabe disso. O pobre quando negocia o voto recebe como moeda de troca um pneu de bicicleta, o rico exige quatro pneus de Hilux. Daí o sentido maior da prostituição entre as classes elevadas e a banalização no seio dos menos favorecidos.

Ressalto também que a degradação dos princípios morais e da poluição dos fatos não se acham tão somente entre aqueles que diretamente praticam a negociação do voto, ou seja o que compra e o que vende. No degenerado mundo da democracia, como na prostituição, sempre há os alcoviteiros, os alcaguetas para perverterem ou aliciarem alguém. São os leva e traz da campanha.

Muita gente boa assume o papel de irredutíveis defensores dos seus patrocinadores trazendo para a publicidade apenas o lado bom do seu cliente. Esquece de mostrar, entretanto, a parte podre da melancia, como se esta fruta fosse totalmente comestível.

Claro que cada um puxa a brasa para sua sardinha. Defender e acusar faz parte do jogo. Mas, muitos fazem de forma tão primária que as atitudes louváveis acabam se transformando numa brejeira babaquice e seus autores vão para a mesa dos vocabulários rotuladas de verdadeiros puxa-sacos.

Diz a ciência que “a continuidade de uma ação nos faz desperceber a sensação da mesma”, por isso a bajulação repetida torna-se sem graça, improdutiva a ponto de gerar o descrédito para quem bajula e para o ente bajulado. Muita gente se perde nesse contexto e torna-se um mero figurante das apresentações. Perde o crédito por não saber dizer ou por falta de conteúdo significativo.

Vamos, portanto, juntos fazermos desta campanha ou de qualquer uma outra que abraçarmos um momento ideal para o esclarecimento da verdade, dos fatos e das propostas que cada um pretende apresentar. Vamos olhar todas as faces da fruta antes de propaga-la. Não sejamos tão unilaterais. Quem é dono do lucro também é do prejuízo. Sejamos mais realistas, mais coerentes com as nossas próprias colocações. Claro que o direito de expressão nos assiste, mas a comunicação possui regras. A vida é como o ato de dirigir um veículo. Devemos olhar os diferentes lados que nos cercam. Para isto existem os retrovisores. Não fique preso somente ao que você pensa, ao que você entende ou ao que você acha. Seja mais aberto, mais objetivo, mais pluralista no que você fala. Muita gente apostaria em você, se assim você pensasse e agisse, para melhor reforçar a expressão de suas ideias.

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