Em Paramirim: Um caso de Longevidade X Durabilidade

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Em Paramirim: Um caso de Longevidade X Durabilidade

Uma outra curiosidade de nossa bendita história diz respeito a um ex escravo que viveu ao sopé da Serra do Catuaba, mencionado pelo que se sabe como o longa vida de Paramirim, ou seja, o cidadão que emplacou mais janeiros.

Sei que faleceu na década de sessenta sendo sepultado no cemitério da Vila Canabravinha, para onde foi levado numa rede, descendo e subindo serra com muito sacrifício, para satisfazer um pedido seu enquanto vivo.

Não o conheci, mas sobre ele ouvir contar algumas façanhas, dentre as quais a aposta por ele feita com um pilão de madeira existente na cozinha de sua humilde morada, solidamente plantada à margem direita do vetusto riacho que alimenta com águas da chuva a Lagoa de Paramirim.

Manuel Joaquim da Galha do Pau a quem seus contemporâneos chamavam de Mané Joaquim da Gaia Pau, era o nome dele.  Um de seus filhos se tornou conhecido pela alcunha de Zé do Catuaba. Residiu muito tempo no interior de São Paulo e quando retornou à terra natal já era casado com uma prima carnal também Catuabeira.

Segundo consta nos anais da eclética oralidade que permeia a região, Seu Mané Joaquim faleceu com 135 anos, sendo por conta dessa idade, considerado o maior recordista de longevidade dentre os paramirinhenses de que se tem notícias.

Pelo dito desafio, o Catuabeiro recordista jurou que só morreria depois que o pilão furasse até chegar ao chão. Um desafio e tanto. A vida humana contra   a existência de um pedaço de madeira bruta, insensível e resistente ao tempo. Os janeiros de Seu Mané Joaquim se sucederam. A concavidade do pilão se aprofundou pela ação continua de se socar o café, o sal, o milho, a paçoca e o arroz, mas não se deu por concluída.

Seu Manuel Joaquim perdeu a aposta para o renitente pilão de baraúna que apesar das pancadas recebidas se perenizou, se tornando mais forte do que o seu próprio criador. Resistiu ao desafio das intempéries naturais e o mourejar contínuo do ato de pilar.

As palavras de seu Manuel Joaquim da Gaia do Pau não se profetizaram, mas a história gerada no contexto dos acontecimentos do qual ele fez parte varou os tempos nas asas dos contadores de casos. Uma façanha invulgar, uma idade privilegiada, um desafio de titãs, uma aposta inédita em circunstâncias adversas, uma vitória da durabilidade sobre a longevidade.

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