Do susto ao empurrão

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Crônica: Do susto ao empurrão

Pequenos episódios ocorridos de forma isolada na sociedade, se alinhados forem no tempo e no seu devido lugar, acabam compondo o complexo quebra-cabeça da história da humanidade, às vezes, pouco conhecida por falta do devido registro. No resgate desses fatos, quando possível, está a essência maior do historiador,onde o SE com as suas pontas tortas se transforma na tábua de explicação para as causas e efeitos dos grandes acontecimentos.

O mais clássico deles aconteceu com Pedro Álvares Cabral. SE este navegador não tivesse afastado tanto da costa da África, com certeza não teria descoberto o Brasil. SE não fosse a maçã, Newton não teria formalizado a Lei da Gravidade. SE não tivesse olhado para trás, a esposa de Lot não viraria estátua de sal e Sodoma e Gomorra não teria causado tanto sensacionalismo bíblico.

Na história da Bahia, outro exemplo fantástico foi o toque de corneta do cabo Luiz Lopes que no auge da Guerra da Independência, ao invés de tocar retirada, conforme fora ordenado pelo Tenente-Coronel Barros Falcão, acabou, por engano ou quem sabe por iniciativa própria, tocando “ Avançar a cavalaria, e sucessivamente à degola”. Por conta desse incidente, o Exército Brasileiro se salvou e o General Madeira perdeu a Guerra. Não fosse isso, talvez, o Poeta dos Escravos não teria conteúdo suficiente para dizer:“ Era dous de julho. A pugna imensa, travara-se nos cerros da Bahia…”. Dessa forma, SE fossemos juntar as contas de todos os acontecimentos com a participação do SE, certamente formaríamos um imenso rosário.

Do folclore tiramos um outro exemplo que muito serve para ilustrar os nossos argumentos. Numa certa paróquia havia um padre já idoso que ao morrer foi substituído por um outro bem mais novo, mais exigente e progressista. Assim que tomou posse do cargo, chamou o sacristão, ordenando-lhe como deveria ser feita a escrita da igreja. Este, simplesmente, lhe respondeu que não sabia ler nem escrever. Dou-lhe trinta dias para você aprender, caso contrário, está despedido, advertiu o padre. Sem o emprego, o coitado partiu para uma outra cidade, onde passou a vender cigarros ( cigarros de verdade ) na porta de um cinema. De tanto vender esse produto, tornou-se rico. Certo dia recebe o convite de um gerente para abrir uma conta bancária. Na hora do autógrafo, veio a revelação, o homem era analfabeto. Aconselhado para entrar numa escola, argumentou: – SE eu soubesse ler e escrever estaria sendo sacristão de padre, até hoje.

E no velho Paramirim dos casos mal contados, o que teríamos de interessante com a participação do SE nos acontecimentos? Repito, são pequenos episódios, mas são muitos. Neil Armstrong quando pisou à lua, em 1969 exclamou: “ Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade ”. Encorajado por este substrato, passo a dizer que o Padre Manfredo Alves de Lima, vigário da paróquia de Santo Antônio e chefe político do município, ao se retornar de uma viagem à capital da Bahia, foi acometido de uma doença que o levou à sepultura. Antes disso, sofreu um tremendo vexame que segundo se conta fez agravar ainda mais o seu mal relacionado com o coração. Temendo que alguns adversários viessem lhe preparar um ardil na sua chegada, seus amigos mandaram dois próprios ao seu encontro. O bondoso vigário já havia sido avisado antecipadamente para ficar prevenido. Além de se preocupar com a enfermidade, teria também que ficar esperto contra uma possível emboscada. De repente, a poucos quilômetros da vila de Paramirim, vê sair do mato dois homens armados (Zuza e Bevenute) indo ao seu encontro. O sacerdote passa mal com o susto. Sofre uma crise cardíaca e só com muito sacrifício consegue chegar à sua residência, praticamente, nos braços de seus acompanhantes. Era véspera de natal, mal consegue celebrar a Missa do Galo. Seu estado de saúde piora. Vem da cidade de Livramento um clínico. Era tarde demais. Falece no dia 18 de janeiro de 1925. Tomado de emoção, muita gente argumentava: SE não fosse o susto, o padre Manfredo não teria morrido tão cedo.

Do susto, passamos ao empurrão. Após mourejar na capital paulista, estudando, trabalhando e ganhado dinheiro, retorna a Paramirim já com diploma de advogado na mão e status de empresário bem sucedido, o ilustre filho do Sr. João de Neco, Dr. José Francisco da Silva, mais tarde apelidado de Tio Dedé. Segundo ele próprio conta que em 1996 ao participar de um comício na comunidade de Caraíbas em prol da candidatura do seu irmão Peito de Aço, passou por uma grave humilhação. Ao tentar receber o microfone para fazer uso da palavra, foi fisicamente empurrado pelo então prefeito do município que o impediu de fazer o seu pronunciamento. Esse empurrão passou para a história e por conta dele, o “Tio” SE invernou na política e deu no que deu, como todo mundo sabe.

Cercado de SE por todos os lados, fico aqui no meu cantinho, como um simples observador dos fatos. Pelo espelho do tempo, vejo um turbilhão de coisas lá fora. Tudo SE mexendo, SE envolvendo, SE decompondo, como os ingredientes de uma indigesta receita dentro de um liquidificador em alta rotação. Logo mais, estarei na próxima parada, quem sabe para um cafezinho e um novo caso. SE assim, Deus me permitir.

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