Dia das Mães, relembrando os anos dourados de Paramirim

0
10071
Dia das Mães, Relembrando os anos dourados de Paramirim

Na década de sessenta, os anos dourados de Paramirim, os anos, conforme dizem os saudosistas, que não voltam mais, tudo ou quase tudo era bem diferente de hoje. No calendário, o tempo é assinalado numericamente, mas no fundo, bem no fundo, na folhinha das recordações, o que prevalece mesmo são as emoções vividas, os sentimentos compartilhados, os lugares que se foram e as pessoas com quem convivemos. Nada disso pode ser definido ou dimensionado por meio de algarismos, mas simplesmente através da palavra saudade, a mais doida de todas.

Pois é, como diz um bom contador de casos, nesse tempo o circuito dos eventos sociais em Paramirim girava em torno do ginásio, do clube e do cinema, fora isso, era só o jardim, a feira-livre, a Igreja e no mais das vezes um mergulho nas águas do rio nos domingos ensolarados. Nada mais que isso.

Talvez por conta dessa quietude, a cidade era mais acolhedora e os seus habitantes bem mais hospitaleiros. Todos que aqui chegavam, viravam amigos, compadres ou comadres, casavam-se e passavam a ser cidadãos paramirinhenses, sem títulos, mas de coração.

Nessa década aqui viveram americanos, a exemplo do Reverendo David Lodge e sua esposa com os filhos, bolivianos (poucos lembram do professor Churata), por aqui também passaram soteropolitanos e gaúchos, cada um com uma missão específica, fazendo alguma coisa, prestando o seu serviço espiritual ou material. Aqui não havia gregos e troianos, nessa época, todos eram paramirinhenses e todos juntos formavam uma grande família, unidas pelos mesmos sentimentos, fazendo prevalecer o respeito recíproco.

O ginásio era o centro catalizador das atenções. Atraia jovens estudantes de todos os municípios circunvizinhos. Cada ano era uma nova safra. Nos eventos cívicos e tradicionais as ruas se vestiam de azul marinho, com predominância do cáqui para os homens. Dentre os principais acontecimentos dessa década, podem ser tomados como exemplos a inauguração do seu prédio próprio em 14 de maio de 1961 (Dia das Mães naquele ano) e a criação do Curso Pedagógico em 22 de fevereiro de 1963. A sala de aula era o lugar sagrado para se construir o conhecimento e cultivar o saber. Seus professores davam conta do recado. Orgulho-me pertencer a esse tempo.

No Clube (Associação Cultural e Recreativa de Paramirim) realizavam-se as principais festas dançantes, sempre com um motivo justo, aguardadas também com muito anseio pelos jovens. Não ficavam de fora os bailes de formatura, o carnaval, o aniversário do clube, o réveillon, a chegada da primavera e os festejos juninos. A diversão não era uma rotina enfadonha, consumista e colonizadora, mas um acontecimento na vida das pessoas sempre organizada de forma comunitária pelas famílias, sem desmerecer os costumes e o livre direito de se divertir.

No Cine Alvorada, mais tarde, Aliança era o lugar de se ver o que passava lá fora. Sem televisão e vídeo, o jeito mesmo era grudar os olhos na tela do cinema, isto quando um novo filme chegava a cidade e o precário motor da luz não interrompia o fornecimento da eletricidade. Havia filmes para todos os gostos (menos os pornôs), elencados por Roy Rogeres, Grande Otelo, Zé Trindade, Mazzaropi e os internacionais Marcelo Mastroiani, Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Elizabeth Taylor e as famosas películas de Tarzan, baseadas nas imortais obras de Edgar Rice Burroughs, Quo vadis, Ben-Hur e as aventuras do detetive 007. Nada de guerra nas estrelas nem viagens interplanetárias.

Mas, o salão do Cine Alvorada, depois aliança, não era apenas o lugar de se passar filmes. Nele se realizaram também grandes solenidades da década sessenta, como colação de graus de concluintes e formandos do ginásio de Paramirim e as inesquecíveis sessões solenes em comemoração ao dia das mães. Delas me recordo muito bem e até vale a pena lembrar pela beleza e os sentimentos de responsabilidade e dedicação encarnados nesses eventos.

Comemorar o dia das mães era um dever sagrado das escolas, quase que uma obrigação curricular. Tudo se fazia de forma muito simples, espontânea e bem planejada. No palco do cinema colocava-se uma mesa grande, tomada por empréstimo nas casas vizinhas. Sobre ela uma fina toalha de rendas manufaturada pelas mais prendadas artesãs da cidade. As flores naturais com predominância de rosas não podiam faltar, nem tão pouco as cadeiras estofadas para as autoridades da escola (nada de políticos). Em volta dela lugares especiais para a representante das mães e dos demais segmentos sociais presentes.

A direção da escola abria a sessão com um breve discurso de exortação à data. Após esse ato, os alunos assumiam a continuidade dos trabalhos. Discursos, mensagens, poesias, músicas, declamações se sucediam como passos cadenciados numa surpreendente caminhada. Cartazes com frases prontas “ Mãe! Rainha do lar, sinônimo de pureza e bondade”, perfilavam na parede formando um painel com elogios e exaltação às homenageadas de todas as classes, de todas as raças, de todos os credos, de todas as condições sociais e de todas as idades.

As sessões solenes em comemoração ao Dia das Mães realizadas no salão do cinema em Paramirim, promovidas pelo Ginásio e a Escola Normal, ficaram para sempre na mente e nos corações de seus protagonistas e participantes. Não foram apenas as marcas de uma escola, mas o rastro positivo de uma década que ficou para sempre na história de uma cidade que se orgulhava de ser simples, humilde e receptiva. Até por que, ninguém melhor do que uma mãe merece tal distinção e como símbolo dessas marcas inolvidáveis, registro aqui a letra de uma canção que marcou a nossa época, sempre cantada ao som de um de um rustico violão, para homenagear todas as mulheres que no caminho da existência tiveram e têm o orgulho e o privilégio de serem mães.

Flor Mamãe Ângela Maria
Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui