Criticando a crítica

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Criticando a crítica

Criticar é uma arte. Poucos sabem faze-la e pouquíssimos têm coragem de registrá-la. Através dessa arte apontamos falhas e erros, identificamos causas e efeitos das distorções sociais, abordamos atitudes e comportamentos individuais e coletivos, esclarecemos ideias e conceitos mal formulados, persuadimos alguém a executar ou deixar de fazer algo.

Enfim, a crítica também sugere soluções, quando construtiva, apresenta uma proposta de mudança. Combate a continuidade das discrepâncias, não importa a esfera do fazer humano. Não fosse assim, não existiria o crítico literário, nem tão pouco os comentaristas de rádio e televisão, quando noticiam fatos de forma subjetiva.

Atualmente, o crítico conta com um forte aliado, sem dúvida alguma, fruto das tecnologias modernas. As redes sociais constituem hoje a grande ferramenta para divulgar, praticamente, sem nenhum custo e extremamente rápido, tudo o que se quer falar sobre alguém ou sobre alguma coisa, da forma como bem entender, mesmo correndo o risco de ser identificado e penalizado. Daí o grande perigo. Mas, deixamos esse assunto para uma outra oportunidade. Vamos ao que nos interessa.

Na política e no futebol, as duas maiores paixões dos brasileiros, o que não falta é assunto para se criticar. Até dizem que cada torcedor é um técnico e que quem não gosta de política torna-se vitima daqueles que gostam. O que não é o nosso caso. O que queremos abordar é o ato de criticar com ou sem fundamento uma questão, especificamente no campo político. Nessa área, sobra conteúdo. Criticamos formas de governo, regimes políticos, partidos, ações governamentais, candidatos, postura dos eleitores, resultados dos pleitos, propagandas eleitorais e acabamos caindo na vala da corrupção na grande maioria das vezes.

Isso mesmo, a corrupção é o prato predileto, o ponto nevrálgico de todos os ingredientes da crítica, seja como eleitor ou não, não importa se oposição ou situação, todos nós somos um crítico. Nesse particular, ninguém poupa adjetivos e impropérios, atirando setas por todos os lados, à curta e à longa distância. Chama-se o prefeito de corrupto, diz que a Câmara e conivente, que seus comparsas são laranjas, que o Congresso Nacional é o culpado das miserabilidades que ocorrem no Brasil, que o eleitor não sabe votar e arremata tudo dizendo que o povo é inocente. E tudo fica no que dantes era. Basta ligar a TV, abrir os jornais, sentar-se com um amigo, ou, dar uma espiadinha nas redes, lá está o tema corrupção saltitando à nossa frente e na boca de todo mundo, sempre culpando alguém ou algum grupo, mormente quem está no poder. Bandidos estão por toda parte, artistas também, mas digo com toda franqueza, todos nós somos culpados.  

Tomo aqui como exemplo, o caso de uma determinada obra que se diz superfaturada (valorizada na sua receita e aniquilada na sua despesa), cuja prestação de contas não passa de meia dúzia de notas fiscais, alguns recibos de prestações de serviços e um pequeno histórico do que se recebeu e se gastou, nada mais que isso. Critica-se que houve superfaturamento na dita cuja, que não se gastou nem a metade do dinheiro que recebeu, que o povo foi desrespeitado nos seus direitos, negligenciado no seu merecimento, que a qualidade e o volume dos serviços executados, bem como o material utilizado, não correspondem a tudo que foi dito na tal prestação de contas, nem muito menos ao valor da verba recebida. Aí concluem os críticos, a maior parte do dinheiro foi para o bolso dos governantes e seus laranjas.    

Assim, é o que muitos pensam, o que poucos dizem e alguns criticam. Falar é muito fácil, falar por escrito não é tão fácil assim. Criticar é fácil demais, criticar por escrito pouquíssimos fazem, nem todo mundo quer. Falar através das redes num grupo fechado é um ato com repercussões restritas, muito fácil de expor. Falar mal do Vasco, por exemplo, no meio da torcida do Flamengo é colocar manteiga em venta de gato, quero ver você falar mal do mengão, pior ainda se for escrito, no meio dos urubus, aí o bicho pega poucos têm essa coragem. Assim, é criticar o adversário político no seio de um grupo do WhatsApp genuinamente formado para criticar o adversário. É como acontece dentro de uma panela de pressão. Os feijões sob o fervor da água se tocam uns aos outros, mas não extrapolam os limites do recipiente que o contém. Assim terminam todos os caroços saturados dentro de círculo vicioso, cheio de repetições.

Como falei no início dessa conversa que através da crítica abordamos erros e acertos, quase sempre em vão, como também propomos soluções, comumente inaceitáveis por razões de incomodar alguém, nosso barco fica à deriva, o dia amanhece, o tempo passa, mas a crítica nunca termina por que sempre há algo novo a se criticar, como estou a fazer agora criticando a crítica. E a solução?

A solução para o caso da pequena obra mencionada como superfaturada, tanto de boca e em boca como nos grupos do WhatsApp da oposição é muito simples, basta atitude, coragem, determinação …

Sugerimos que se forme uma comissão em nome do povo, constituída de cidadãos dos diferentes segmentos sociais (representantes da construção civil, do comércio, dos meios empresarial, contábil e jurídico, além de outros), dê um pulinho de forma pacífica na respectiva Câmara de Vereadores de sua cidade, converse com o presidente desta casa, dizendo (ou exigindo) vistas ou analise da prestação de contas dessa obra. Com uma análise sucinta de quantas telhas, quantos blocos, quantos sacos de cimento, quanto se gastou com a mão de obra, quantos metros de madeira e de ferro foram efetivamente utilizados com os seus respectivos valores, muitos detalhes serão esclarecidos. Se a casa do Legislativo em apreço, que se diz ser representante do povo, atender o propósito de sua solicitação e ambos, (comissão/Câmara) chegarem à conclusão de que tudo está devidamente comprovado, resta nos dar o nosso parecer. Aconselho a todos os cidadãos dessa cidade a hipotecarem no próximo pleito votação maciça nos seus ilustres Vereadores por eles constituírem um exemplo de legislativo atuante com severa fiscalização das contas públicas, a ponto de escutar e acatar os legítimos anseios de uma representação popular.

Do contrário, faça o que sugerimos ou cale-se para sempre. Nesse caso, podemos concluir que representantes e representados estão navegando na contramão dos acontecimentos e da ordem social. Onde não há fiscalização, não há apuração da verdade. Onde não há apuração da verdade, não há conclusão dos fatos. Não devemos esquecer que as aparências nos enganam. Vivemos num mundo do faz de contas. Fazendo e cobrando de mentirinha. Ninguém tem coragem de adentrar os bastidores da história, falta criatividade, ação, coragem. Ninguém quer se expor. Falamos, criticamos, mas não apuramos, por que não agimos. Se você quiser ser o segundo, o terceiro, ou o vigésimo oitavo dessa comissão, com certeza eu serei o primeiro. Você topa? Não? Então pare de criticar da forma que estão criticando.

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