Comunidade do São João – A redenção do Vale do Paramirim

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Comunidade do São João – A redenção do Vale do Paramirim
Mangueiras – Sítio São João

Alguns anos atrás, quando se falava em sítio São João pensava-se logo no Cel. Hermenegildo Ribeiro de Magalhães (Cel. Melé), dono de uma importante propriedade, localizada entre as povoações de Baixinha e Tabua, todas na margem esquerda do Rio Paramirim. Pensava-se também em Martiniano e José Raymundo, ambos irmãos e filhos legítimos do patriarca José Nicolau da Silva, do qual descende meio mundo de gente, espalhada por aí a fora como farinha jogada ao vento.

Zé Raymundo e Martiniano eram casados respectivamente com Aquilina Moreira Barbosa e Porfíria Maria de Jesus, ilustres descendentes do tronco Moreira, as quais trouxeram consigo uma valiosa herança constituída de terras e gado de primeiríssima qualidade, grande parte da qual até hoje se acha presente nas mãos de alguns herdeiros subsequentes, a exemplo de Ailton e José de Joaquim, este último, neto de Hermelino de Souza Porto, antigo morador do lugar denominado Riachão.

Com o passar do tempo, o que antes era apenas dois ou três sítios limitados entre si se transformou numa comunidade notadamente formada pelos remanescentes de antigos troncos familiares que ali chegaram, dentre os quais, os Moreira, os Silva, os Portos, os Ribeiros, os Leões, os Saraiva e os Magalhães. As terras, por sua vez, foram divididas e subdivididas pelas continuas partilhas e inventários e, o que antes eram extensas propriedades, se transformaram em minifúndios pertencentes a diversas famílias.

Atualmente, a comunidade de São João, localizada na margem esquerda do Paramirim, a 7 km da sede municipal, goza do privilégio de alguns benefícios essenciais conquistados ao longo dos anos por parte de seus moradores. Além de energia elétrica de razoável qualidade e água tratada da Embasa, sua população, formada de aproximadamente 40 famílias, dispõe de um Posto de Saúde do sistema PSF com dois agentes comunitários que ali atendem semanalmente com direitos à assistência médico-odontológica pelo SUS. No setor educacional, possui um prédio escolar (Escola José Raimundo da Silva) como também uma linha de ônibus para o transporte diário de seus escolares.

No campo do associativismo, a comunidade de São João constitui um exemplo a ser seguido por muitas outras. A grande maioria das famílias que habitam o seu contexto são filiadas à Associação dos Irrigantes do Vale do Paramirim, que muito tem lutado em prol de suas reivindicações e dos interesses da categoria que representa. Recentemente foi adquirido por doação um moderno trator que já se encontra operando no preparo das terras para diversas culturas.

Com a inauguração do asfalto da BA-156, hoje BA-152, esta comunidade foi uma das mais beneficiadas. Suas terras foram valorizadas e o número de residências se multiplicou pela facilidade de locomoção para as localidades circunvizinhas e sobretudo para as feiras livres da região. O que antes se fazia em morosos carros-de-bois ou em lombos de possantes montarias, agora se realiza através de veículos motorizados com rapidez e eficiência, apesar dos inúmeros acidentes com vítimas fatais ou não já ocorridos ao longo do seio leito.

Com uma localização privilegiada entre o Rio Paramirim e a majestosa Lagoa da Tabua, as férteis terras desta povoação têm se prestado ao longo dos anos tanto para a agricultura como para a pecuária. Com a chegada da energia elétrica no início da década de oitenta e a conclusão da Barragem do Zabumbão em 1997, abriu-se um leque de oportunidades para os seus moradores em busca de uma melhor qualidade de vida.

Essas atividades, herdadas de seus antepassados, se incrementaram a partir do momento em que os proprietários passaram a aproveitar para fins agrícolas o potencial das terras secas, onde até então a irrigação através de sulcos não chegava. Com energia, água e terras disponíveis e a vasta tradição agrícola de seus moradores, a comunidade do São João hoje se desponta com uma das mais produtivas do Vale do Paramirim.

Se no passado, extensos arrozais douravam as vazantes da beira do rio graças a benevolência dos açudes ente os sítios Baixinha e Lagoa da Porta, hoje o carro chefe da produção transita nas ” terras do alto “, ao longo da rodovia que corta longitudinalmente a comunidade. Os arrozais e canaviais perderam espaço para as roças do “ feijão rosinha ” garantidas pela perenização da lagoa e do rio, os quais permanecem constantemente cheios graças à generosidade do Zabumbão sob o controle sistemático da soltura de suas águas pelo Comitê de Bacias em conformidade com as determinações da ANA (Agência Nacional de Águas).

Por conta desses fatores e da sua própria tradição agrícola, o pequeno povoado do São João vem mostrando o seu vigor na produção de hortaliças e frutas, principalmente, manga, Coco da Bahia e maracujá, sem se falar no seu destaque principal representado pelas leguminosas com duas safras anuais da melhor qualidade, garantindo-se assim, boa rentabilidade econômica para os seus produtores.

Está aí, pois, uma das muitas razões de se dispensar a melhor das atenções para esta comunidade, valorizando a agricultura familiar ali predominante, não só para garantir a permanência do homem no campo, como também proporcionar empregos e rendas para sua população no exercício de uma das atividades mais nobres do ser humano, qual seja a produção do pão de cada dia.

Coco da Bahia - Sítio São João
Coco da Bahia – Sítio São João

Com base nessas colocações, nada mais oportuno e necessário do que agilizar a eletrificação trifásica da margem esquerda e direita do Rio Paramirim, a jusante da Barragem do Zabumbão, como também apressar a modernização do seu sistema de irrigação, prioridades estas garantidas nos termos do conflito estabelecido pelo Comitê das CBH-PASO desde abril de 2015. Com água garantida, terras férteis, eletrificação da área e moderna irrigação, a comunidade entenderá que da união nasce a força e aí haverá de perceber a necessidade de mudanças no seu comportamento agro social. Para tanto, sugerimos a criação de um sistema de gerenciamento cooperativado com assistência técnica para melhor produzir, melhor colher e melhor vender de forma sustentável.

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