O circuito do protesto

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O Circuito do Protesto em Paramirim
Cena das manifestações do dia 29 de abril de 2015

O trecho da cidade de Paramirim compreendido entre a Rodoviária Arnaldo Barbosa Martins e o Centro Cultural Dr. Nabor Cayres de Brito, passando pelas Avenidas Macaúbas, Botuporã, Praça Érico Cardoso, Avenida Francisco Brasil, Trevo Tobias Tanajura e Avenida São José, quer queira ou não, doravante será lembrado na história local, como o Circuito do Protesto, porque não dizer também o caminho da libertação.

O que aconteceu nesse trajeto na manhã de 29 de abril de 2015, culminado com a apoteose do Centro Cultural ficou para sempre na mente e nos corações de todos que participaram direta ou indiretamente da memorável manifestação que por ali passou em defesa das águas do Zabumbão. O que ali se presenciou impressionou a todos, mesmo aos mais incautos e aos indispostos a correr atrás dos seus direitos. Milhares de pessoas, de todas as classes sociais, de mãos dadas, de cabeça erguida, donas de si, conscientes do que estavam fazendo, marchando a um só passo, rumo ao alvo de seus anseios, gritando pela liberdade, proclamando que a voz do povo é a voz de Deus, ocuparam literalmente as ruas para demonstrar sua insatisfação contra o projeto do Governo Estadual que visa compartilhar as águas do Zabumbão para mais cinco municípios circunvizinhos.

O circuito do protesto foi o caminho por onde se ecoou o grito de guerra dos que lutam pela vitalidade do Vale do Paramirim, pela defesa das águas do Zabumbão, pela preservação de seus recursos naturais, pela cultura e pelas tradições locais prestes a serem violentadas pelas ambições de um governo prepotente. Por este caminho passou o antidoto do mal, a voz dos oprimidos, aglutinados num só desejo, o desejo de lutar contra o entreguismo, a barganha de um patrimônio que ao invés de água derrama lágrimas pelas comportas de seus olhos, visivelmente transformada em moedas de valores obscuros.

Por esse caminho foram perseguidos os objetivos de uma tribo guerreira em defesa de seus domínios. Os que por ele passaram, não foi a plebe nem a elite, não foram os sectários nem os casuístas, não foram as casernas nem as senzalas, nem os operários nem os patrões os que ali ergueram voz. Foi a síntese de um povo que saiu às ruas não para estender a caneca da esmola, mas exigir com determinação e garra, com sabedoria e coragem, os seus direitos, a sua sobrevivência, a sua legitimidade.

O circuito do protesto não será lembrado tão somente pelos que rasgaram o crepe do medo, mas por todos que o presenciaram de perto ou de longe, calado ou manifestando em prol de uma causa justa, como fizeram os heróis da Inconfidência através do Libertas Quae Sera Tamen, do grito de liberdade proclamado pelo poeta Castro Alves, e mais recentemente do Chico Mendes que perdeu a vida por defender o meio ambiente.

Os que trilharam esse percurso não foram tão somente pessoas. Vimos sobretudo, atitudes, emoções, posturas, ações, resumidas numa só expressão chamada de exercício da cidadania, que nada mais é senão a luta pelos direitos assegurados constitucionalmente. Vimos estabelecimentos comerciais de portas arreadas com cartazes de adesão ao protesto, cidadãos e cidadãs descruzarem os braços, desfraldarem as bandeiras, calçados com as sandálias da luta, elevando a sua voz num inédito momento da história do Rio Pequeno. O que vimos no circuito do protesto foi o comportamento de um povo saindo de uma hibernação malfadada, imposta por um grupo que teima em perverter a ordem sem considerar os legítimos anseios de seus representados.

No circuito do protesto, Paramirim passou a servir de exemplo de um povo que não se submete ao coronelismo de nenhum governo, porque no seu seio existe dignidade, sentimentos nobres, ideais imbuídos no desejo extremo de liberdade, mesmo que seja tardia.

O circuito do protesto não foi o lugar da baderna nem da exaltação de um monarca, não foi a via do hilariê, nem do todo mundo lá. O circuito da manifestação teve espaço para todos, mas principalmente para os que conjugam o verbo da cidadania de forma descontraída, a demostrar que um povo unido jamais será vencido. O circuito do protesto foi o horizonte por onde raiou a luz do porvir, o espaço por onde ecoou a indignação de um povo bradando contra o sucateamento de um patrimônio conquistado com perseverança. Um patrimônio que nada deve àqueles que buscam tirar proveito do seu potencial para satisfazer interesses não compatíveis com a suas finalidades.

Daqui para frente, não se diz mais que Paramirim é tão somente a terra da boa gente, mas a urbe de um povo que dá o troco na hora certa, a pátria dos que levantaram a voz, dos que saíram às ruas de forma coesa, pacifica e ordeira para dar um basta a atitude inconsequente e precipitada de um governo que reina, mas não governa.

Avante, pois, Paramirim, feche os olhos por um instante, prenda a respiração, concentre o pensamento, pense um momento no cenário das manifestações do dia 29 de abril de 2015, data em que o povo veio as ruas para uma luta memorável em prol dos seus direitos. Reviva cena por cena do que ali aconteceu, onde cada um de nós foi um protagonista. Conte mais tarde para as novas gerações que você lutou pelos legítimos interesses de sua terra, num momento em que os seus irmãos mais precisavam uns dos outros, faça de sua história, uma história digna de ser contada para a posteridade.

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