Chega de ficar calado

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Chega de ficar calado

Há pessoas que se revoltam e protestam diante das coisas as mais insignificantes, demonstrando a sua insatisfação com os inconvenientes que atropelam o convívio social. Não são daquelas que se calam perante uma situação adversa. Aponta os erros, propõem soluções e até indicam o tratamento que se deveria dar a determinadas questões de cunho local ou de maior abrangência. No fundo são os agentes que não dormem na rede do deixa estar como está, para ver como é que fica.

Existe um proverbio milenar que diz: “ Em boca calada não entra mosquito ”, ao qual sempre acrescento, “ mas também não sai a catequese ”. Não sai mesmo! Somos biologicamente dotados das faculdades de falar, agir e interagir, do contrário não seriamos grupo. Mesmo nas tribos mais primitivas os princípios da inaceitabilidade sempre fizeram presentes das mais variadas formas, ora gerando conflitos, ora proporcionando o progresso.

A acomodação é o caminho mais curto para se chegar ao fracasso. Ressalto, que a missão do guerreiro é a luta, não importa se a caminho do cadafalso ou do podium. Na década de setenta predominou um slogan entre os brasileiros enfatizado na frase “ mecha-se ”. Daí surgiu o palavreado “ quem não se vira é quadrado ou então caju que já nasceu virado ”.

Um dos grandes pecados dos protagonistas de um grupo é a omissão diante dos fatos que permeiam o seu viver. Esquecem que são criaturas críticas e reflexivas. Quando isso acontece, seus elementos tornam-se reféns do seu próprio comodismo. Muitos acham que não se pode reclamar de um vizinho, ou bater de frente com ele, para não perder a sua amizade nem colocar em cheque a política da boa vizinhança. Aceitam o som alto, o lixo jogado na rua e o ladrar insuportável de um cão durante a noite e até dizem no dia seguinte “o bilu do amigo está apaixonado”. Enquanto suas olheiras crescem noite após noite de sono perdido.

Ora pois que babaquice. Um outro erro imperdoável é o de se desculpar diante dos chamados casuísmos políticos, que surgem nos lugares mais improváveis, ditos até por pessoas que se dizem cultas. Está história de afirmar: “ não tem jeito ”, “ é assim mesmo ”, “ assim somos e assim haveremos de ser por toda vida ”, “ é melhor largar para lá ”, como se fossem o estribilho de uma destoante melodia na boca de quem não sabe cantar. Empurrar com a barriga os problemas nacionais, regionais ou locais como se eles não fossem nossos, é a grande saída daqueles que não admitem que o NOSSO é a expressão do comum, tanto do lado bom como do ruim. Aí fico lembrando do matuto que diz “ farinha pouco, meu pirão primeiro ”, mesmo sabendo que os demais vão ficar ferrados.
Outra grande babaquice que vejo em certos grupos é o ato de levar de forma intencional ou não os problemas sérios para o campo humorístico, pejorativo e muitas vezes até mesmo com uma roupagem pornográfica. Se é problema, por menor que seja, o tratamento que a ele se deve dar, deve ser feito com a devida seriedade. Essa mania de contar piadas em velórios, ridicularizar com charges as mazelas e os protagonistas de uma realidade sofrida não passam de uma tragicomédia, sem sal, sem humor, mas verdadeiramente trágica.

O grande presidente francês Charles de Gaulle há décadas já dizia “ o mal do brasileiro é não levar nada a sério ”. E não leva mesmo. Um humorista na terra de babacas tem mais público do que um missionário. Pior do que isso, os indivíduos não sabem confrontarem-se, achando que a política do deixa isso pra lá supera todos os males. E aí, depois da onça morta, todo mundo quer meter o dedo.

Desvirtuar o problema é uma outra questão. Se a nossa causa é de âmbito local, não há porque envolvê-la numa questão maior, mesmo sabendo que cada fato social tem o seu contexto à curta ou a longa distância. Por isso, que a teoria de DESCARTES deve prevalecer, na minha opinião: “ Diante de uma dificuldade qualquer, devemos dividi-la em quantas partes for necessário. Resolver cada uma delas, partindo sempre da mais próxima ou da mais fácil ”.

Se o nosso problema é aqui, somos nós que devemos resolve-los. Por que essa de laquear questões local com outros de âmbito maior? Nada mais é do que uma fuga da realidade em busca de uma utopia generalizada. Como querer abraçar o mundo, se não conseguimos abraçar os que estão pertos de nós. São coisas para se pensar. Se o problema é local por que jogar a culpa nos chineses ou nos Yankees que nada têm a ver com isso. Se o meu foco é o Aedes aegypti por que atacar o gafanhoto?

É isso aí meu caro leitor, sem querer, acabei dizendo que me simpatizo com aqueles que ao se sentirem incomodados batem com a taramela, porque sempre geme quem sente a dor. Se tiver coragem e uma pouco de bom senso ponha este texto sobre a sua mesa para uma reflexão. Se ele te tocar em alguns pontos, reflita sobre o que está acontecendo a sua volta. Caso contrário, continue em seu lugar, fazendo o que você sempre gosta de fazer. Ficar calado, esperando que o demais ponha a papinha na sua boca.

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