Casa velha abandonada

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Casa velha e abandonada

O viajor que se envereda pelos sertões, ao descer uma baixada ou contornar uma colina, se surpreende de quando em vez, pela imagem sombria de uma velha casa abandonada no meio da paisagem. Não importa se um casebre, se um antigo casarão com várias janelas ou simplesmente uma choupana coberta de palhas.

Cada uma tem a sua história que se confunde com várias outras. Umas serviram de morada para sucessivas gerações, outras de acolhida a um casal por curta temporada. Todas elas, entretanto, são vestígios do passado, relegados ao abandono. São peças que se vão consumindo pela inclemência do tempo, pelo descaso, sem probabilidade de recuperação.

Penetrar suas ruínas é deparar-se com um monte de figurantes que já não existem mais. As suas vozes e imagens se foram para sempre. No terreiro já não se ouve mais o ladrar festivo dos cães, nem o cacarejar das galinhas. Já não se escuta o mugido da pedura no curral, nem se vê o gato preguiçoso espreitando-se na janela. Em que mundo se meteu o canarinho da terra aprisionado na gaiola pendurada na varanda? Quem dera achar ali os pés de boa-noite que ornavam a porta de entrada e os emaranhados de bogaris para os saudáveis descanso nos dias ensolarados. Quantas lembranças! Sobre a porta da sala não mais se vê o registro do DEUS ESTEJA NESTA CASA estampado num quadro, nem a folhinha do ano gentilmente ofertada pelo comerciante amigo.

O que fizeram do efêmero presépio armado religiosamente a cada final de ano. Da sala desapareceram o guarda-louças e as rústicas cadeiras de couro emparelhadas em volta da mesa com gavetas. Também se foi da varanda o velho cabide triangular povoado de chapéus. No quarto da família não se tem mais a rede de ninar o recém-nascido, nem a mesinha composta de flores sobre a qual se erguia um pequeno oratório do santo de devoção. Adentrar essas intimidades é uma questão de segundos. Tudo flui rapidamente, num piscar de olhos, como diz o sertanejo. A porta não mais se fecha com a travanca e a taramela. Da cozinha desapareceram a colher de pau, o cuscuzeiro e a chocolateira. Não mais se tem o pote de barro, o pilão, e o fogão à lenha. Quantas saudades do cuscuz de milho adoçado com rapadura, do beiju de tapioca e do arroz doce. Quantas recordações do feijão sacudido com torresmo, do arroz temperado com açafrão, da paçoca de carne seca, dos manués, e do doce de umbu. Nada disso existe mais! Tudo agora são ruínas, são lembranças que não se dá jeito, dá-se saudades. Tudo se foi como a fumaça esbranquiçada das chaminés paralisados definitivamente pelo abandono da velha cozinheira.

Casa velha abandonada, tuas vestes matizadas pelo alvor da tabatinga em contraste com o roxo terra dos roda-pés desbotaram-se por completo. Tuas paredes de adobes sob o peso dos janeiros teimam em ficar de pés, como herói ferido em busca da sobrevivência. No quintal a frondosa jaqueira se transformou num fantasma de galhos ressequidos. Se antes ostentava o brilho e o calor do convívio humano, agora padece a triste dor da degradação.

Ao bater à porta dessas lembranças não se escuta mais o boa tarde dos visitantes nem o até logo dos moradores. Do terreiro de chão batido desapareceram as cantigas de roda, a reza prá chover, o três – três passará. Não mais se a reza ladainha de São João Batista, nem se acende a folclórica fogueira em frente à porta com inúmeras tradições. Não se ouve mais os conselhos dos pais, as orações em família, o trabalho em mutirão. Como um casarão abandonado, a sociedade também está se desagregando. O que antes era um sítio de convivência está se transformando em tapera. Os costumes se foram, como as aves que abandonam seus ninhos para nunca mais voltarem. Os mais velhos passaram para o andar de cima. Os herdeiros, um após outro, partiram para bem longe. Buscaram a cidade grande. Esqueceram suas raízes. O que antes era um doce lar, agora são paredes carcomidas pelas intempéries da vida mexendo com a mente do passageiro anônimo tomado de surpresa. Casa velha abandonada, solidário à tua dor, também estou ficando cada vez mais velho, daqui a algum tempo, juntos seremos apenas lembranças.

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