Bar de Melé, o point dos anos dourados de Paramirim

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Bar de Melé, o point dos anos dourados de Paramirim

A venda de Melé na esquina da praça Coração de Jesus com a rua 16 de Setembro em Paramirim foi rebatizada posteriormente com um nome mais moderno de Bar de Melé e bem mais tarde com o mix que passou a ter ficou sendo Casa São José. Seu proprietário era o carismático Hermelino José de Oliveira, falecido em 08 de abril de 1990.

Melé como ficou conhecido foi um homem de mil e uma utilidades em Paramirim. Não sei se tenho fôlego para dizer todas elas. Sei, entretanto, que todas eram importantes aos seus conterrâneos e de quebra aos sertanejos circunvizinhos. O Sr. Raimundão de Água Quente que não me deixe mentir. Todos por unanimidade preferiam a pinga de sua venda, desde os tempos da rua de trás. Aquela rua onde habitavam Carunxa, Lau e bem mais no começo Sa Mocinha, mãe de Javan.

Cansado, quem sabe, das aperreações dos veteranos pés-de-cana da rua de Trás, Melé economizou alguns trocados com muito sacrifício, é claro, restaurando imagens, cortando vidro, pintando paredes, fazendo licores e para felicidade de sua família comprou o casarão da esquina da rua do meio nela se instalando de mala e cuia a sua residência e o seu ponto comercial. Aí haja quartos para conter os muitos filhos que procriou com Dona Bezinha, a simpática morena, filha de criação de Meza.

A venda de Melé ganhou chiqueza quando o seu proprietário comprou a segunda geladeira de Paramirim. A pioneira, segundo contam, pertenceu ao bar de Miguelzinho Tunes lá pelos idos de quarenta no mais tardar cinquenta. Esta eu não conheci, mas a de Melé lembro-me muito bem. Uma Gelomatic branca, aquecida à querosene. Uma estrutura de aço a nos fazer lembrar um cofre. Mais peso do que capacidade. Em compensação, do seu refrigerador saía a mais gostosa das cervejas que se possa imaginar. Gelada lentamente até a garrafa se tornar parecida com um véu de noiva como se dizia na época. Aí então a venda de Seu Melé, na rua do meio, ganhou status e se transformou em bar com privilégios de garçom e reservado.

Mesmo assim, o bem quisto vendeiro, depositário fiel da mais fina educação e zeloso com os seus clientes não teve como evitar alguns beberrões que também desceram a rua. Para driblar esses dissabores o persuadido comerciante fazia fechar as portas do estabelecimento permitindo apenas entrada selecionada por dentro da sua própria residência até tirar os cabras do carreiro como ele próprio dizia. Nesse meio tempo, Paramirim também se elitizava com a chegada dos funcionários da CVSF, (Comissão do Vale do São Francisco), dos guardas da malária, dos estudantes do ginásio, dos técnicos e engenheiros da Ematerba e por fim dos banebianos com seus lustrosos talões de cheque mate e bons salários.

Tempos bom aqueles meus amigos Toe Luiz, Hermes de Seu Henrique dos Correios que o diga. O bar de Melé não servia tiragosto nem churrasco, mas se primava por ser o estabelecimento de copos mais asseados da cidade. Os americanos, simples e duplos, eram lavados e enxaguados com açúcar, uma descoberta curiosa desde o tempo em que esse produto não era refinado. Naquele tempo não havia Bom Bril nem detergentes não só brilhavam como também ficavam isentos de quaisquer cheiro e resíduos. As vezes quando ali se encontravam Zé Meira (cavaquinho), Altamiro (sax-sanfone), Miguelzinho barbeiro (violão), Quincas Araújo (cantor), Edgard Viana (clarinete) Zé Cardoso no pandeiro e o próprio Melé no violino era um musical pra mais de mês do mais refinado bom gosto. Tudo na base do respeito e dentro dos limites da boa convivência vicinal. Pena que nesse tempo as mulheres não frequentavam bares mesmo sabendo que o de Melé era extremamente familiar.

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns Prof. Domingos pelo resgate que vc. fêz da “venda” de seo Melé e dele próprio. É o maior legado que o homem deixa como herança: sua conduta moral.

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