Audiência pública, Lagoa de Paramirim, Lucaia, etc Cia

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Audiência pública, Lagoa de Paramirim, Lucaia, etc Cia
Lago de Paramirim

Se o direito de expressar o que penso, o que sei, o que sinto e o que posso me assiste. Não me acanho dizer as verdades colhidas nos quintais da vida, principalmente no que se concerne à história local, que respeito, amo e a ela tenho dedicado grande parte do meu tempo pelos anos a fora.

No contexto físico – geográfico de Paramirim três elementos sempre cativaram a minha humilde atenção, sem desmerecer os demais: a barragem do Zabumbão, a lagoa que borda a cidade e o rio Paramirim. Os três nasceram para se completarem. Juntos formam um invejável patrimônio natural, infelizmente sem os cuidados necessários para o aproveitamento pleno do potencial que inspiram.Provas dessa minha afinidade com os mesmos são as crônicas que escrevo sobre eles e as ações   que já promovi proclamando    a beleza e a importância de cada um, a exemplo da histórica manifestação popular de 29 de abril de 2015,  realizada graças ao apoio e a participação de vários companheiros que se uniram em torno de um único objetivo em  defesa das águas do Zabumbão.                

Assim me disponho a falar que o Rio Paramirim, afluente da margem direita do São Francisco, desempenhou um importantíssimo papel na história regional como fonte de atração e fixação do homem ao longo de suas margens, garantindo o precioso líquido para as populações emergentes, a irrigação das terras e o sustento da pecuária e da agricultura desde o início da colonização portuguesa.

Com raio de ação mais restrito a lagoa, outrora chamada de lagoa grande pelos habitantes primitivos não fez por menos. Ajudou a formar a cidade. Nela o peixe era farto e de boa qualidade, em torno dela se plantava e colhia. Era como se fosse a Bolsa Família da pobreza que via nos seus arredores. Na época das grandes enchentes o Paramirim formava parceria com o riacho do Catuaba para manter os níveis da bacia, ocasião em que os excessos das águas de ambos desciam rio abaixo levando consigo os detritos acumulados ao longo dos anos, referindo a este fenômeno os antigos moradores diziam a lagoa sangrou. Hoje em dia não se vê mais, tanto pela escassez das chuvas na região como pelo cinturão de asfalto construído em torno do seu leito, impedindo que as águas do rio se encontre com as água da lagoa num Abraço de redenção.

Rio Paramirim – Foto: Paramirim Eventos

Em 1997/1998 concluem-se as obras da barragem do Zabumbão para garantir a perenidade do Rio Paramirim, após mais de sessenta anos de espera. Com este tão sonhado benefício despontam-se as possibilidades de novos projetos e empreendimentos em diferentes setores da economia: agricultura, pecuária, turismo, lazer, piscicultura sem se falar na seguridade do abastecimento de água para quatro municípios da região. Se grande foi o sonho almejado, os resultados não foram tão satisfatórios assim. Falta iniciativa para adequação das muitas dificuldades encontradas para o aproveitamento dos 60 milhões de metros cúbicos de água e o seu reservatório, escorrendo grande parte do ano sem o aproveitamento por falta de energia em muitos trechos do rio sem modernização dos sistemas de irrigação. Faltam medidas concretas e sobram polêmicas em torno do assunto.

Hoje, aqui, abriu-se uma audiência para se falar de águas.  Águas da natureza, águas do rio, dos lagos, da lagoa, águas dos corpos superficiais e subterrâneos, águas de todos os mananciais. Mas se deveria falar também das águas dos nossos olhos, transformadas em lágrimas pela inércia, a burrice e a insanidade de nós mesmos em ver um patrimônio tão importante e tão raro se transformar ou ser transformado em uma imensa fossa a céu aberto para onde escorre todos os esgotos da cidade, isto a mais de trinta anos consecutivos.

Sabemos, não só por ouvir dizer, mas principalmente por testemunhar que há nove anos aqui chegou a empresa Lucaia para executar as obras do esgotamento sanitário de Paramirim como uma das medidas para despoluição da bacia do Vale São Francisco da qual faz parte a bacia do Paramirim. As obras foram iniciadas sem o devido acompanhamento e tudo se fez a toque de caixa, consumindo um montante de recursos quase que equivalente ao que se gastou para construir o Zabumbão.

Lastimoso dizer que a lagoa de Paramirim, antes considerada um cartão postal da cidade, agora já não mais faz jus à essa distinção pelos dejetos carreados para a sua bacia, ultimamente agravados pelo aumento continuo de nossa população urbana.

Imagine os senhores, quanta contradição.  Enquanto um lavrador na zona rural. Luta para construir um tanque de 3X4 para fazer um pequeno criatório de peixes, bombeando a água de um poço ou do Rio, temos aqui um lago de aproximadamente 600 mil m2 a espera de providências para lhe devolver a salubridade de outrora, onde o peixe e os palmípedes possuíam vida longa e podiam ser aproveitados para o consumo humano em qualquer época do ano.

Ressaltamos que a natureza fez a sua parte.  Nos deu um vale de terras férteis, um clima salutar e um relevo deslumbrante. Temos um rio e uma barragem arquitetados em plano superior à lagoa a nos mostrar que usando a própria lei da gravidade podemos reabastece- lá em qualquer época do ano se necessário for, não só com as chamadas Águas da Intendência, mas sobretudo com o excesso produzido durante as enchentes do Paramirim.

Barragem do Zabumbão – Foto: Marcos Domício

Diante dessa realidade, sinto-me na obrigação de dizer que não queremos, como diz o poeta, que não queremos enchentes de caridades, queremos sim chuvas de honestidade, queremos medidas inteligentes por parte dos órgãos governamentais. Queremos uma lagoa despoluída, desassoreada, uma lagoa sustentável para que nela todos os viventes possam viver e reproduzir   o alento para a mesa principalmente dos mais carentes. Queremos uma lagoa sem mortandade de peixes, uma lagoa para se ver, sentir e tocar com os olhos da alma e do coração, correspondendo ao que no passado fora: uma fonte natural, uma reserva ecológica, um cartão postal na paisagem sertaneja um braço forte nas hortaliças, um espelho d’água para se bebermos, banhar e praticar o lazer.

Sim, queremos sim e até digo que podemos exigir, para que este benfazejo Plano de Bacia do Paso para o qual aqui hoje se realiza essa audiência Pública promovida pelo consórcio cujos representantes se fazem   presentes em quem todos nós depositamos não só a esperança como também a confiança de representar no papel os legítimos anseios das pessoas que habitam esse abençoado vale. Queremos uma lagoa saudável, uma barragem do Zabumbão correspondendo às suas finalidades prioritárias sem retalhos e sem retaliações,  queremos um rio Paramirim fluindo água para toas as populações ribeirinhas, rio abaixo e rio acima, queremos modernização da irrigação nas áreas servidas pelo Zabumbão, queremos a eletrificação trifásica da margem esquerda e direita do rio  que nos abastece, esgotamento sanitário das cidades de Paramirim e Érico Cardoso, prioridades zero na saúde pública do Vale que habitamos, queremos mais barragens nos afluentes do Paramirim, principalmente no município de Rio do Pires, queremos a conclusão do Plano conforme está previsto para 2017. Queremos respeito a todos que necessitam da água como meio de sobrevivência. Não queremos enchentes de caridades, queremos chuvas honestidade, do contrário haveremos de repetir o 29 de abril de 2015, quem sabe com a necessidade da apoteose    de uma audiência como essa para cuidar das águas de milhares de par de olhos encharcados de tanto chorar perante a insensibilidade dos homens que governam o nosso país, sem ao menos se tocarem com a régua da igualdade social em respeito ao do direito que nos assiste.

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