As balsas de barriguda da Lagoa de Paramirim

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Barriguda ou Paineira branca
Barriguda ou Paineira branca

Para quem conviveu no entorno da Lagoa de Paramirim e fez dela um ponto de referência da cidade, jamais poderá olvidar os elementos de sua paisagem e os fatos ocorridos no seu contexto. Como esquecer a sua fauna e a sua flora, a sua biodiversidade e a exuberância de suas cores. Os seus encantos e magias fizeram parte da história de todos que ao seu redor viveram. Suas lendas e tradições sobreviveram ao tempo, seu folclore espelha os rastros deixados pelos antigos povoadores da região.

Como um filme reprisado na minha mente, ainda vejo o seu deslumbrante cenário embalando os anos iniciais da minha existência. Nos dias de calma, dava gosto mirar no espelho de suas águas prateadas, ao pino do sol. A multiplicidade de seus elementos se completando com a figura do solitário pescador conduzindo sua embarcação ao encontro do peixe. No seu entorno nasci e cresci convivendo com suas nuances e usufruindo da sua generosidade. A lagoa era o celeiro natural, de onde se tirava os viveres para o abastecimento das famílias mais carentes. Agora é uma poça d’água desprovida dos seus primitivos atributos.

As balsas de barriguda faziam parte desse cenário. Tratava-se de uma rústica embarcação, feita do tronco entumecido da barriguda, árvore da família das bombacáceas, em vias de desaparecimento dos campos de Paramirim. Totalmente esculpida a machado, possuía a forma de um quadrilátero, medindo aproximadamente dois metros de comprimento por mais ou menos um metro de largura com uma concavidade inferior a cinquenta centímetros. Depois de pronta tinha que permanecer ao sol, para se tornar mais leve. Servia para pesca, o lazer e a travessia de um lado para outro da lagoa. Flutuava levemente sobre as águas impelida por um remo ou um outro pedaço de madeira. Conduzia no máximo três pessoas. Com a escassez da barriguda, seu desaparecimento foi inevitável.

A chegada de uma balsa na lagoa era festejada com muita alegria por de todos que compareciam ao local para saudar o acontecimento. Retirada dos campos do Sobradinho e suas adjacências, eram transportadas ao seu destino final em hilariantes carros de bois. O gemido dos eixos sob o peso da carga despertava a atenção dos ribeirinhos que em grupos se concentravam no local de chegada para acompanhar o seu lançamento nas águas. Ninguém segurava o desejo e o prazer de estrear um passeio para experimentar o seu desempenho.

É de se ressaltar que o espírito comunitário sempre prevaleceu entre os habitantes do bairro Beira da Lagoa em todos os momentos do seu cotidiano. Tanto é que o uso desse meio de transporte também se fazia de forma comunitária, como se fosse um bem comum para servir a todos a depender de sua disponibilidade. Não me canso de dizer que as experiências por mim vividas nesse contexto no decorrer dos anos que ali passei são marcas que se perpetuaram no tempo, das quais jamais posso desvencilhar. Assim foi o meu convívio nesse bucólico mundo encantado. Apesar das mutilações praticadas no seu corpo, sua presença continua na minha mente e como um solitário pescador dos tempos idos me vejo flutuando sobre as águas do seu leito nas toscas balsas de barriguda à procura de uma sombra para remoer as minhas mágoas e curtir o meu saudosismo.

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