Águas da Intendência

1
10023
Águas da Intendência
Barragem do Zabumbão, Paramirim – Bahia

Numa certa escola, o aluno pergunta ao professor de Português: Pró, o que é Água da Intendência? O distinto que nada sabia de história regional, descarta. Meu filho se fosse água de cheiro, água de coco ou água que passarinho não bebe, bem que eu saberia lhe explicar, mas essa tal Água da Intendência vou ficar lhe devendo.

Sem se conformar, o pirralho na aula seguinte faz a mesma pergunta, desta vez a um professor de Ciências. A resposta é um pouco mais expressiva, mas longe de acertar o alvo da questão. O que posso lhe dizer Joãozinho é que a água é uma substancia formada de duas moléculas de Hidrogênio e uma de Oxigênio, daí a fórmula H²O. Pode ser encontrada na natureza no estado liquido, sólido ou gasoso, mas essa tal de Intendência não sei lhe explicar.

Sem resposta satisfatória, a pergunta chega à mesa da diretora que também era professora de História. Esta vai até a sala para tentar dirimir a questão e satisfazer a curiosidade de seu pupilo. Olha gente água de Intendência ao meu ver é a mesma coisa que água da prefeitura, isso porque antigamente a repartição que hoje conhecemos com esse nome, chamava-se Intendência Municipal. Logo Água de Intendência é água da Prefeitura Municipal.

Diante dessa resposta a classe respirou aliviada, menos Joãozinho que em hipótese alguma se sentia satisfeito. Tanto é que na aula seguinte, repete sua indagação ao professor de Filosofia e como o assunto nada tinha a ver com a sua praia, simplesmente filosofou o problema dizendo que a água corre para os rios e os rios correm para o mar… E dá o assunto por encerrado.

Na volta para a casa, Joãozinho encontra casualmente com um candidato a vereador e tenta lhe explicar que a diretora da escola havia dito que a Água da Intendência era a mesma coisa que Água da Prefeitura.

Foi aí que o bicho pegou. O Tal candidato que andava revoltado com a política municipal, mas sem a noção exata do significado da expressão Água da Intendência meteu o sarrafo na situação. “ É isso que vamos combater daqui para a frente, seu Joãozinho. Essa maracutaia tem que acabar. Prefeitura não é cabide de emprego, nem dona do município. Se eleito for vou acabar com essa mamata. Cada coisa vai ter o seu dono. Hospital vai ser do povo, escola será dos alunos. Vou dar direito para quem tem e acabar com essa ditadura de querer mandar até na água que vem da chuva e a todos nós pertence. ”

Estarrecido por conta desses palavreados Joãozinho chega em casa e começa a ligar as evasivas dadas a sua pergunta, como se essa fosse um bicho de sete cabeças. A retrospectiva do dia passa pela sua mente como as cenas de um filme cheio de interrogações. Água que boi não bebe, molécula de oxigênio, repartição municipal, cabide de emprego… o deixando cada vez mais perdido, mesmo assim não desiste.

Após a refeição do meio dia, encontra-se com o pai na oficina e com muita intimidade pergunta: Painho, o que é Água da Intendência, sem lhe revelar o ocorrido na escola em torno do assunto.

O pai, por sua vez, que já havia passado toda manhã às voltas com o carburador de uma velha pick-up, faz das tripas coração e lhe responde calmamente. Sei não meu filho, amanhã ocê pergunta na escola. Joãozinho abre o jogo. Já perguntei painho, ninguém me explicou direito. O dialogo poderia prosseguir, mas diante dos imprevistos da pergunta sem resposta e do carburador enguiçado, o dócil mecânico, para não desagradar o filho, prefere engolir sua contrariedade com a escola, dizendo-lhe simplesmente às cinco da tarde esclareceremos tudo, podes confiar, fio.

Foi aí que as cinco em ponto da tarde de ontem recebi a visita dos dois ilustres personagens, pai e filho dessa história, que aqui omito os nomes para não ser indiscreto com os mesmos.

Após ouvir o relato de ambos, senti-me tomado por uma baita responsabilidade, não por ser o salva-pátria de Joãozinho (nome fictício) para lhe dar uma resposta convincente, à altura do seu merecimento e da sua capacidade de compreensão, mas sobretudo por merecer o crédito de ambos, numa situação aparentemente simples, porém de fato significativa pelo grande interesse demonstrado pela criança e o esforço do pai para ajudá-la numa tarefa que a própria escola não respondeu.

Confirmo, também, que naquele instante desejei que Joãozinho fosse gente grande, pois só assim poderíamos dizer para ele o que toda gente grande precisa ouvir, mas me contive e com a mesma perspicácia de quem passou quase meio século envolvido com perguntas e respostas fui direto ao assunto de forma a mais descontraída possível, recorrendo ao que conheço sobre o assunto.

– Olha Joãozinho, há muitos anos vários proprietários do nosso município construíram ao longo do rio Paramirim uma porção de barragens para represar as suas águas a fim de usá-las no período das secas na irrigação das terras adjacentes. Havia fartura de feijão, milho, verdura e frutas em qualquer época do ano. A água represada nos açudes era dividida entre os proprietários, isto porque foram eles que com muito sacrifício construíram as barragens com os seus próprios recursos. O governo não ajudava em nada. Mas com o passar dos anos vieram as mudanças e sucessivas estiagens, provocando a falta de água no leito abaixo das represas. Foi aí que houve uma combinação entre a Intendência (hoje Prefeitura, como lhe disseram) e os proprietários. Nos períodos mais críticos, os donos das terras fechavam as bocas de rego em dias determinados da semana e de acordo a combinação feita a água descia livremente rio abaixo, para não deixar seu leito secar totalmente. Era uma combinação garantida por lei, ou melhor, pelo Código de Posturas Municipais (1).

Por conta dessa explicação acrescentei, as bocas de rego eram fechadas as seis horas de sábado assim permanecendo até as seis horas da manhã da segunda-feira seguinte. Todos os proprietários respeitavam o acordo, pois sabiam que a medida era de grande utilidade para os demais moradores do município, principalmente os da beira do rio. Se alguém desobedecesse pagava uma multa pesada.

Portanto, esse direito cedido pelos proprietários ao Poder Público Municipal de utilizar as águas dos açudes por eles construídos ganhou o nome de Águas da Intendência (2), denominação esta que existe até os dias de hoje, mesmo após a construção da sonhada Barragem do Zabumbão.

Certo de que meus interlocutores se davam por satisfeitos com as minhas palavras, acrescentei que cada proprietário, de acordo com o tamanho de suas terras e a contribuição dada para a construção dos açudes, tinha direito de maior ou menor quantidade de horas de água, direito esse reprisado de quinze em quinze dias, de forma que sempre havia braços a serviço das lavouras e água suficiente nos regos para irrigar as terras. Paramirim era o celeiro do sertão.

Antes mesmo de concluir a nossa conversa, um ruidoso carro de som invade a avenida anunciando que por ordem do Comitê de Bacias dos Rios Paramirim e Santo Onofre e em conformidade com a Agencia Nacional de Águas, esclarecia mais uma vez a manutenção das Águas da Intendência para reabastecimento ecológico do Rio Paramirim. Nada falei a Joãozinho nem muito menos ao seu pai, mas dentro de mim pensei, ainda bem que é a ANA que está disciplinando as águas do nosso rio, mesmo sabendo que a dita cuja antigamente era chamada de Água Intendência.


1 – Código de Posturas do Município de Paramirim. Artigos 74 a 77 e seu parágrafos. 20 de Julho de 1932.

2 – Designação da água procedente dos açudes particulares para o uso público. Direito que a Intendência possuía sobre a soltura periódica e obrigatória da água dos açudes para reabastecimento do rio. O mesmo que água da municipalidade. Direito garantido à Intendência pelo Código de Posturas Municipal. (ABC do Zabumbão – Professor Domingos Belarmino da Silva.

Publicidade

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui