A lavadeira e a madame

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A lavadeira e a madame

Dois casos de racismo movimentaram recentemente a imprensa brasileira. O primeiro deles relacionado com o jogador Tinga, atacante do Cruzeiro, quando participava de uma partida de futebol pela Libertadores da América contra o Real Gracilaso, no Peru.

O segundo, com menor repercussão, acontecido num salão de beleza, na parte central de Brasília, no momento em que uma empresária australiana se recusou a ser atendida por uma manicure negra.

Pois é Mano Velho, o preconceito racial sempre existiu por toda parte do mundo. Parece que vai continuar por um bom tempo. Muita gente diz que não é racista. Mentira Pura! Apenas não manifesta para ser civilizado, medo da punição. Mas, lá no fundo, bem no fundo do coração, guarda consigo rancores inconcebíveis. Pior que isso, finge o tempo todo. Negligencia a velhice, os menos favorecidos, os incapazes, os subalternos, os excluídos, os adversários políticos, os evangélicos ou vice versa, se não for católico, enfim pisa nos demais que não se enquadram na sua “laia”. Se Castro Alves, apenas para recordar, foi rejeitado numa dança de salão por ser plebeu, imagine um qualquer que não tenha eira nem beira. Tem muita gente de qualidade por ai comendo o pão que o diabo amassou, simplesmente, por que não bate palmas, nem anda de beijinhos com a galera da mordomia.

Tudo fica no campo do circunstancial, do momento ou da ocasião. O fulano ou a fulana serve para cumprir as minhas intenções, fazer o que eu mando, mas sentar-se à minha mesa, jamais. Participar de meu convívio social, nem de longe. Ficar perto de mim, não dá. Quero distância. Ovelhas com ovelhas, cabras com cabras, dizia um antigo vigário da região se assim alguém manifesta ou simplesmente pensa, deixa de ter o nobre sentimento de igualdade, muito menos de fraternidade.

Foi isso que aconteceu aqui no velho Paramirim, alguns anos atrás, quando a igreja era o único ponto de encontro da sociedade. O lugar de reunir pobres e ricos, pretos e brancos, irmanados em Cristo. O lugar de se confraternizar, de arrepender-se, de dar as mãos, de humilhar-se. O lugar de se fazer exame de consciência, de proclamar a Mea Culpa. De orar, de bem dizer, de buscar a Cristo, de se pedir o perdão. Foi na igreja de Paramirim, como poderia ser também em qualquer outro lugar, que aconteceu a explosão da descriminação racial mais descabida que já ouvi. Isso alguns anos atrás, repito. Olha que o fato está abafado até hoje. Por envolver pessoas graúdas da sociedade atual, ninguém toca no assunto. Desta forma aconteceu, conforme ouvi contar:

Certa feita em plana novena de Santo Antônio, com a Igreja superlotada, uma pobre lavadeira dividia um banco com outras devotas. Uma das dondocas da alta Societé que se sentara ao seu lado, sentia-se importunada com sua presença. Sem tirar os olhos do altar, a madame toda preconceituosa, resmungava sua repugnância: — Sai daqui negra fedorenta – tempo em que se aplicava severos beliscões no braço, tentando expulsá-la de sua companhia. Como uma bola inflável, a crioula teve seus limites expandidos até onde não pôde mais. Levantou-se de supetão, desabando uma chuva de impropérios sobre sua desafeta: — Larga de mim, sua fintona. Mal pagadora. Eu sou negra, mas você me deve uma trouxa de roupa que até hoje não me pagou. Dizendo isso, retirou-se para outro banco enquanto, toda a Igreja exclamava a uma só voz: que horror é esse!

A pobre da lavadeira que passava o dia quase todo batendo a roupa nas pedras do rio, corpo cansado de pessoas já cinquentenária, achava-se sentada quando a madame chegou e postou-se ao seu lado. Não havia outro lugar. A novena já havia iniciado. O circunspeto sacerdote da paróquia tomava as providências para a celebração, tinha que ser ali, sem aquela negra ao seu lado. Logo hoje que a Matriz está superlotada. Meu vestido novo, minhas jóias, meu “rouge”, minhas rendas, meu status… Tenho que expulsá-la, tangê-la de perto de mim. Assim pensou, assim fez.

Fez, mas se deu mal. Passou vergonha. Recebeu merecidamente o troco, enfezou um cascavel de cinquenta ou mais guizos. O padre que se achava à sua frente ouviu, compreendeu o drama. As cantoras também. Os cavalheiros postados de pé à porta de entrada ergueram a cabeça sobre a multidão que ocupava o templo murmurando “olha em que se dá mexer com quem está quieto”. Daí para frente só foi comentários. O fato virou deboche, até cair no esquecimento. Hoje, entretanto, me lembrei dele, do mesmo jeitinho que aconteceu, estou lhe contando, Mano Velho.

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