A catita de Zé Barbosa

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Cachaça Catita de Zé Barbosa

O sítio Arraial de Baixo é logo ali, como diz o sertanejo. Mas, para se chegar nele tem que passar pela Praça Castro Alves, descer a rua Quincas Cruz, ganhar o asfalto da BA 904, cruzar o Rio Paramirim, sobre a ponte Leopoldo Leão e após a Escola Agrícola enveredar-se por uma estrada de terra e um pouco mais na frente serpentear pelo corredor de Tota Cruz, subir uma pequena ladeira e aí sim, eis o dito cujo à nossa esquerda com a cara voltada para o sol nascente. Viu como é fácil, basta um pouco de fôlego. Um sarto de pulo…

O que existe de especial, ou melhor, o que ali existia, pode ser resumido em duas coisas. Primeiramente a bondade e a gentileza de seus proprietários. O casal Zé Barbosa e Dona Nenzinha, pode se dizer duas almas gêmeas, era de uma receptividade incomensurável. Os dois não tiveram filhos, mas a simplicidade de ambos cativava a todos que ali chegasse, fosse qual fosse a finalidade. Ninguém saia de mãos vazias, sem um sorriso no rosto, nem um dedo de uma boa prosa, tudo na base das regras de uma boa convivência.

O sítio Arraial de Baixo com os fundos voltados para o Rio Paramirim tinha de tudo ou quase de tudo. Terra fértil, fartura de água, lavoura de feijão e cana de açúcar, centenárias mangueiras, engenho e alambique, razões de sua grande movimentação. Aos domingos recebia visitantes atraídos pela amizade dos moradores ou pelo sabor da aguardente nele fabricado, sempre tomada ao pé da peroba. Nessas ocasiões o que era trabalho virava festa para tudo ser repetido na semana seguinte com o mesmo desprendimento do casal.

Eis aí pois, a segunda razão da importância desse recanto. No sítio de Zé Barbosa destilava-se a melhor cachaça da região, segundo os entendidos. A famosa Catita, de cana pura, no auge de sua produção, não possuía concorrentes em termos de qualidade, uma tradição herdada desde os tempos do velho João Bembem, morador no Pajeú. Sua fama atravessou fronteiras, propagada por comerciantes e consumidores. Quer fosse pura ou com limão, ou mesmo com raízes dentro a “branquinha” do alambique de Zé Barbosa era o carro chefe de todos os bares e botecos da redondeza.

Armazenada em enormes perobas de madeira, o produto permanecia em estoque, envelhecendo-se, depurando-se, curtindo-se cada vez mais para depois ser engarrafada e vendida aos fregueses de perto e de longe. A Catita, como era oficialmente chamada, não era uma pinga qualquer. Para melhor sentir os seus atributos tinha que ser saboreada lentamente, apertando a língua ao céu da boca, para depois partir para o tradicional estalo dos dedos, como fazem os bons biriteiros. Nada de jogá-la no fundo da garganta, como se fosse um liquido intragável. Quem bebe e gosta, e o faz por prazer, nunca faz cara feia, explicava um velho amigo paramirinhense, veteraníssimo de copo.

O segredo de sua composição, nem o próprio fabricante sabia. A boa cachaça depende da natureza do terreno, onde se produz a cana. Nada pode se fazer, entretanto, fora do tempo, quadra da lua, com mais ou menos fogo na fornalha. Nada de produto químico para melhorar o seu aspecto, tudo tem que ser feito de forma meticulosa e com bastante dedicação a fim de se obter um bom resultado.

Quanto à escolha do nome, o batismo se deu em distinção a um de seus destiladores mais antigos, apelidado de Antônio Catita, morador nas proximidades do sítio. A denominação pegou pela facilidade de sua pronuncia e o significado a ela associada. Tanto é que virou sinônimo de aguardente pelo lado conotativo do termo.

Diante disso, seu Zé Barbosa dizia que a catita não embriagava, apenas alegrava o cristão. Tanto é que certa feita ao descer a Ladeira do Lava-pés na sua inseparável Brasília, deparou-se com um sujeito caído à beira do caminho. Acompanhado da esposa, desceu do veículo para verificar do que se tratava. Ao aproximar-se do camarada, logo Dona Nenzinha advertiu “ele está é chumbado, José!”, ao que o marido retrucou “então não foi da minha peroba”.

Plasmada nessa realidade a pinga de Seu Zé atravessou décadas, marcou presença em tudo que era festa dentro e fora do município, nas alegrias e nas tristezas, na mesa do rico e do pobre, nos bares e nas vendas, se pautando como a mais procurada do seu tempo. Canaviais e engenhos era o que não faltavam nas barrancas do Paramirim. Beberrões também não. Seu fabricante ganhou fama, mas não ficou rico porque pessoas de corações bondosos sempre repartem o que têm e o que ganham com quem bate à sua porta.

Por isso é que estou aqui escrevendo essas coisas, enquanto muitos conversam sobre Hilux, internet e golpes mirabolantes. O quarteto constituído por Dona Nenzinha e Zé Barbosa, pelo sítio Arraial de Baixo e a Catita nele fabricada bem que merece esses rabiscos, pois no seu conjunto está um pouco da história de Paramirim, tal qual foi, é e será no decorrer dos tempos. Pena que esses personagens desapareceram, mas de qualquer forma deixaram as suas marcas. Marcas de gente que viveu para servir.

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